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	<title>Pé Na Estrada</title>
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	<description>Bem Vindo ao Mundo Jocumeiro</description>
	<pubDate>Wed, 04 Jun 2008 15:44:33 +0000</pubDate>
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		<title>Nosso Encontro com o Dom</title>
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		<pubDate>Sun, 03 Feb 2008 13:58:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Braulia Ribeiro</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Arquivo]]></category>

		<category><![CDATA[Braulia Ribeiro]]></category>

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		<category><![CDATA[Catolicos e Protestantes]]></category>

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		<description><![CDATA[Braulia Ribeiro
Sentamos na sala de espera depois de atravessar duas portas pesadíssimas, uma de grade, outra de madeira com ferrolhos do século passado. Tudo simples, paredes caiadas, mas com aquele quê de arquitetura barroca, aquele lastro de arte pré-renascentista, renascentista, gótica, neo-clássica, contemporânea e por aí vai, ao qual não estamos acostumados em nossa artisticamente [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="right"><strong>Braulia Ribeiro</strong></p>
<p align="justify">Sentamos na sala de espera depois de atravessar duas portas pesadíssimas, uma de grade, outra de madeira com ferrolhos do século passado. Tudo simples, paredes caiadas, mas com aquele quê de arquitetura barroca, aquele lastro de arte pré-renascentista, renascentista, gótica, neo-clássica, contemporânea e por aí vai, ao qual não estamos acostumados em nossa artisticamente pobre cultura protestante.</p>
<p align="justify">Sentamos num sofá grande puído do tempo dos muitos traseiros que se sentaram ali na mesma expectativa. Como seria o dom? Seria um dom ou um Dom? Muitos de vocês leitores talvez já conheçam dons, mas para mim era a primeira vez. Fui católica na infância, era freqüentadora de missas por imposição da minha família, fiz catecismo com as freirinhas. E minha sensação era sempre a mesma, seja na igreja simples que o padre construiu no bairro de favela onde morávamos, com um cristo negro meio tosco que nos olhava míope de uma cruz na lateral da nave, ou no convento onde ia para o catecismo, com um quintal grande de árvores ancestrais, as casinhas das freiras caiadas no fundo, a sala de catecismo nua cheia de carteiras velhas. Minha sensação sempre era a de estar em um lugar onde na verdade não deveria estar. Era a de estar xeretando nos afazeres de um Deus que não me conhecia e não me queria por perto, mas que era íntimo dos padres belgas e de suas freiras de mãos frias.</p>
<p align="justify">Me lembrei desta infância distante, sentada ali esperando o Dom. Outros expectantes de Dom estavam sentados ao nosso lado, eu estava ali com meu marido o que me dava uma segurança e de certa forma segurava a corda para que eu não caísse de vez no fosso profundo das recordações da infância. Os outros eram os mais diferente tipos. Um casal que não se falava e parecia afoito por algum tipo de resposta ou informação oculta no escritório no dom. Um homem meio gordo, com uma expressão de desânimo, uma mulher solícita de verde que sorria de vez em quando.</p>
<p align="justify">As secretárias na sala vizinha conversavam sem parar conversas frívolas num burburinho que não combinava com o clima meditativo em que eu queria entrar. Afinal iríamos falar com o Dom, rompendo uma barreira de quase quinhentos anos desde a reforma protestante, tentando construir uma ponte sobre as ruínas há muito desaparecidas, achando pontos de referência mútuos de entre as estranhezas dos dois mundos. Era um momento que exigia reflexão e respeito. As secretárias no entanto totalmente indiferentes a nossa compenetração se atarefavam com rotinas, água mineral que se acabou copo descartável em falta, outros esperadores de dom que entravam e saíam.</p>
<p align="justify">Tentei ler alguma das muitas revistas espalhadas na mesinha de frente ao sofá. Algumas “normais”, Istoé, Época, Caras não, graças a Deus, o que me deu uma sensação de respeito maior ainda pelo dom. Não tem Caras na sala de espera dele não, já era um elogio que eu podia espalhar por aí. As revista estavam velhas claro, mas não tanto. Tinha Porantim, um jornal favorável à causa indígena publicado pelo CIMI, braço católico missionário entre os índios, uma espécie de jesuítas às avessas, que lutam politicamente mas são contra a evangelização. Meu marido me cobrou logo. -Não vai ler o Porantim não? Mas eu já tinha folheado, e visto que aquela manhã não estava muito indígena, queria mais era ver o dom.</p>
<p align="justify">Aí foi demorando demais a coisa. Os expectantes ao nosso lado foram entrando e saindo lépidos. Me agarrei numa Época, entrando bem dentro dela, acho que de medo de que chegasse a nossa vez. O sofá de couro envelhecido, e a imagem de São Cristóvão na frente não me incomodavam. O que diríamos ao Dom? O que estávamos fazendo ali? Será que iríamos com uma visita desfazer todo o trabalho de Lutero, manchando com uma aliança espúria o trabalho de tantos homens de Deus e o sangue de tantos mártires? Eu me senti querendo correr dali e do Dom. Estou me tornando ecumênica? Uma visita como esta vai me ligar irremediavelmente à idolatria de uma maneira que demônios idólatras me perseguirão, tornarão meu evangelho impuro e meu Jesus incapaz de salvar curar e libertar?</p>
<p align="justify">Ai, ai, vai chegar nossa vez, a Época velha está muito interessante, esta eu não li, não sabia que esta modelo estava de caso com aquele ator, nem que o político fulano tem uma aliança agora com aquele que ele espinafrava tanto em público.</p>
<p align="justify">A mulher solícita de verde se aproximou, e nos adivinhando estranhos naquele ninho, inquietos e quem sabe exalando um pânico mudo, disse: - “Olha era a minha vez agora, mas eu passo pra vocês.” –Obrigado”, dissemos ao mesmo tempo, esperando o momento. Aí passou o Dom cruzando o corredor para o lado do banheiro, sabíamos que na volta ele nos chamaria. Só que os visitantes não paravam de chegar. Chegou mas um homem, todo sujo sentou-se e tinha um rosto de quem decididamente não iria ficar esperando a sua vez como qualquer pessoa comportada, iria entrar de qualquer jeito. Me inquietei com aquilo. Só falta esta agora, este cara só porquê é mendigo tem o rei na barriga, afinal não sou daqui mas não sou nenhum capacho, ele que espere sua vez como todo mundo.</p>
<p align="justify">Aí veio o Dom, fazendo como ele sempre tinha feito antes, vindo até a sala de espera e chamando os que estavam na vez. O homem recém-chegado se levantou e começou a falar sem parar, meio gago, meio falando super-errado de uns negócios que estava fazendo, e de como a vida estava dando certo para ele. O dom prestou atenção, lhe ouviu ali mesmo na sala de espera, tratando-o pelo nome, dizendo que bom, depois você vem me contar melhor. Não pareceu irritado, nem com pressa. Tratou-o como um bom camarada, mas também não nos deixou esperando. Nos encaminhou devagar para seu escritório.</p>
<p align="justify">Chegou rindo falando sobre o rapaz, de como ele sempre ia ali todo dia falar de sua vida. Sentamos e a conversa fluiu. Falamos da barreira que nos separa, e de como que apesar de todas nossas diferenças ainda cremos no mesmo Deus. Falamos de como estamos convictos de que uma ponte tem que ser construída e de que o Espírito Santo vai andar por ela. O Dom, com olhos cansados nos ouvia admirado como se não esperasse nunca um reconhecimento deste de nossa parte.</p>
<p align="justify">Aí abriu a boca e foi falando também de como vê a igreja como responsável pela sociedade de como juntos podemos fazer muita coisa para transforma-la, e de como lamenta pela falta de unidade entre os segmentos do corpo de Cristo. Falou de muitos evangélicos com uma propriedade e um respeito que nós mesmo não temos uns pelos outros, no final olhou sua agenda para marcar um segundo encontro. Nos mostrou a agendinha marcada a lápis, cheia de ações pela sociedade, gritos dos excluídos, uma campanha de moralização do poder político entre outras coisas. O governador tinha ido lá no dia anterior para pedir sua intermediação num problema que envolvia a população indígena e a construção de uma represa que estava secando os rios da reserva e deixando os índios com fome. Com um sorriso triste ele nos contou que o governador tentou lhe vender a idéia de que as represas não causam tanto dano ambiental assim, mas ele o dom, e nós também sabíamos que causava. Neste momento nós três respiramos fundo, num respiro assim de quem não é deste mundo e que quer ir logo pro céu porque não agüenta tanta injustiça.</p>
<p align="justify">Pensei na agenda de muitos pastores que conheço. Culto disto, culto daquilo, célula, como se a igreja vivesse fora da terra numa redoma artificial e religiosa. O que eles teriam pra falar com o governador? Pedidos, pedidos de terrenos, telhas, cimento, areia para construção de templos.</p>
<p align="justify">O Dom continuou a dizer que queria se encontrar conosco mas que com a agenda deste jeito estava difícil. Disse com voz embargada que se fôssemos fazer algum ato público de pedido de perdão, ele também pediria perdão em nome de toda a intolerância e indisposição da Igreja Católica de tratar com seu braço amputado há 486 anos atrás&#8230;</p>
<p align="justify">Naquela hora acreditei que existe uma reconciliação possível. Acreditei que o Corpo é um, e que um dia cada um vai prestar conta de suas próprias idolatrias. Para alguns de nós, o dinheiro, grandes templos, nomes, títulos. Para outros imagens, Marias, santos de todos os nomes e cores.</p>
<p align="justify">Saímos apertando a mão sólida do dom, que nesta hora não foi o Dom, mas um dom de Deus, do Espírito Santo, um dom humilde e honesto como qualquer Maria e José que conhecemos. E cremos juntos ali que, quem sabe, com fé nossa luta para implantar o reino d´Ele na terra será ainda mais intensa se trabalharmos juntos.</p>
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		<title>Novo catalogo da Universidade das Nações</title>
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		<pubDate>Sun, 03 Feb 2008 11:28:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adriano Estevam</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[JOCUM]]></category>

		<category><![CDATA[Bases da JOCUM]]></category>

		<category><![CDATA[Catalogo UN]]></category>

		<category><![CDATA[Universidade das Nações]]></category>

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		<description><![CDATA[O novo Catálogo da Universidade das Nações com informações de cursos e centros de treinamento da JOCUM ao redor do mundo para o período de 2008-2010 já esta em fase final de impressão em Xangai. Mas a versão final está a disposição para download no site da Universidade das Nações. No momento apenas a versão [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify"><img src="http://www.jocumeiros.com/wp-content/uploads/2008/02/untitled-1-copy.jpg" alt="UofN Catalog 2008-2010" align="left" hspace="5" vspace="0" />O novo <strong>Catálogo da Universidade das Nações</strong> com informações de cursos e centros de treinamento da JOCUM ao redor do mundo para o período de <strong>2008-2010</strong> já esta em fase final de impressão em Xangai. Mas a versão final está a disposição para <a href="http://www.uofn.edu/catalog/catalog.asp" title="UofN International" target="_blank">download</a> no site da Universidade das Nações. No momento apenas a versão em inglês encontra-se a disponível. Contudo, estamos trabalhando já a algum tempo na tradução da versão em português e em breve esta também estará online.</p>
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		<title>Uma palavra as mulheres</title>
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		<pubDate>Fri, 23 Nov 2007 04:00:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Braulia Ribeiro</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Braulia Ribeiro]]></category>

		<category><![CDATA[Mulheres]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Bráulia Ribeiro
Uma jornada no &#8220;campo masculino&#8221; entre Henris, Zés e Déboras
Como homens estatísticamente lêem menos que mulheres, (o que será que é isto? Estão contando rótulos de produtos do supermercado, listas de compras, ou será que fazemos melhor uso do pouquíssimo tempo que temos?) com um título destes estaremos totalmente à vontade aqui para [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="right">Por Bráulia Ribeiro</p>
<p>Uma jornada no &#8220;campo masculino&#8221; entre Henris, Zés e Déboras</p>
<p align="justify">Como homens estatísticamente lêem menos que mulheres, (o que será que é isto? Estão contando rótulos de produtos do supermercado, listas de compras, ou será que fazemos melhor uso do pouquíssimo tempo que temos?) com um título destes estaremos totalmente à vontade aqui para fofocarmos no nosso <em>clube da Luluzinha</em>.</p>
<p align="justify"><span id="more-32"></span></p>
<p align="justify">Estou começando agora a exercer uma liderança nacional para a missão e me sinto engatinhando em um terreno quase que totalmente masculino. É uma sensação estranha, é como estar fora de seu país tentando falar uma língua estrangeira, ou estar como uma criança nadando numa piscina de bolinhas de plástico (por que elas gostam tanto daquilo?). Se usa sinais corporais que poderão ser totalmente mal-interpretados, não existe risadinhas de cumplicidade nem idéias implícitas, suas idéias e motivações são denudadas e feitas em pedaços o tempo todo. Para chegar aqui foram anos andando neste mesmo terreno, (até aí, nada de novo no front), por conta própria, sem ter a consciência do que estava acontecendo. Mas agora é oficial. O saber-se oficialmente líder tem um peso horrível. É quase um aleijão. Se antes me sentia adequada para ser ninguém, no entanto seguir os passos de Deus em qualquer terreno, agora tenho o rótulo oficial e irônicamente toda a segurança e sensação de certeza se foi. Não sei mais quem sou. Serei o que eles esperam que eu seja? Ou serei eu, eu mesma, como sempre fui, apenas agora oficialmente em uma função da qual se espera sei lá o quê? (Creio que ninguém sabe ao certo, o que se espera desta função, só se sabe no fundo, que o quer que seja que acontecer, vai estar sempre aquém das expectativas, vai ser sempre menos, e sempre inadequado. Este é um problema que brasileiro tem em relação a liderança em geral, mas deixa isto pra outro dia.)</p>
<p align="justify">Constato num momento de introspecção que não mudei. Sou eu aqui, comigo mesma, ouvindo ou não a Deus, andando no meu dia a dia ao redor de minha casa, da base, das pessoas, obreiros e pastores, como sempre andei, não emagreci nem engordei, não fiquei mais bonita (quem dera), nem mais feia (ainda bem), nem mais espiritual, nem melhor nem pior por causa do cargo oficial. Ainda sou eu mesma no meu dia a dia com meus filhos que a medida que crescem me fazem ter mais consciência da minha insuficiência e necessidade desesperada de Deus.</p>
<p align="justify">Dentro de sua própria casa não existe falsa religião. Ou você é ou não é e seus filhos sabem. Eles sabem quando você erra com eles, e te cobram se você não se arrepende. Eles te conhecem por dentro e por fora, sabem o que te estressa, e o que te acalma, te sabem em seus maus e bons momentos. Deus, como é que eu, hoje neste púlpito, ontem pequei contra minha filhinha, me irritando com a criancisse dela, me perdoa e me envolve em sua graça. Com mãe é assim, não tem performance espetacular em um dia no shopping, ou no parquinho, vantagem que os pais as vezes levam. Tem um dia a dia intenso de cobranças ações e reações, todas esmiuçadas nos detalhes pelos filhos, marido e sua própria consciência.</p>
<p align="justify">É esta consciência que trago para dentro deste papel de líder que agora exerço. Consciência da minha inadequação e incapacidade. O cargo não sou eu. Não sou eu aquela que prega, que decide, que se reúne com outros executivos, para executar execuções religiosas. Eu sou aquela que meus filhos conhecem. Aquela que conversou com eles ontem à noite, apesar do cansaço, ou que apenas escolheu ignorá-los e se refugiar num livro.</p>
<p align="justify"><em>Henri Noweun </em>é uma jóia do pensamento cristão do século vinte. Lê-lo não é só um exercício de espiritualidade mas também um ato de bom senso. Ele não só conseguiu teorizar e ensinar um cristianismo relevante no meio deste mundo pós-moderno sem se contaminar, mas também viveu de acordo com ele. Foi professor em Harvard e Notre Dame, escritor de sucesso, conferencista. Um dia se descobriu embriagado por esta “persona” bem sucedida, e decidiu se afastar e se dedicar ao tratamento de deficientes mentais numa comunidade afastada do mundo. Não punindo a si mesmo, mas seguindo a clara e singela voz de Deus no seu interior. No seu livro: “<em>O líder do século XXI</em>” ele faz a diferença entre a performance religiosa e o verdadeiro ser espiritual. Para resumir o livro em poucas palavras ele teve que se tornar gente, (coisa que só conseguiu entre os deficiente mentais) descer do pedestal de professor de Harvard, autor de vários livros para descobrir de novo a relevância de Jesus e do evangelho na sua própria vida.</p>
<p align="justify">Enquanto lia pensava sobre a diferença entre a cultura masculina e a feminina. O homem pode com facilidade se embriagar pela sua própria persona o tempo todo. A mulher não tem como, a não ser que ela se torna dançarina de axé, neste caso ela deixa de ser uma mulher completa para se encolher ao tamanho de sua anatomia traseira, tornando-se apenas um “derrier” bonito. Veja a<em> Zélia</em>, (uma paixão), ministra, economista, professora, mas será eternamente lembrada como a mulher carentes das paixões arrojadas.</p>
<p align="justify">A <em>Marisa Monte</em> no disco tribalistas se chamou de Zé, numa das músicas em que explica o porquê e a natureza do grupo. Arnaldo, Carlinhos e Zé. Talvez ela se sente masculina, brilhante musicista que é, compositora, arranjadora, num mundo onde raras mulheres se atrevem a entrar. A Marisa virou o Zé. Foi a resposta dela a esta cobrança cultural desmedida. Me deixem em paz, eu sou compositora, não importa meus namoros, quem eu beijo, se eu sei cozinhar ou só fritar ovo, eu sou o Zé. Posição cômoda. Mas eu, não acho que devo virar o Zé também. Aliás, me comprometo aqui com vocês a de maneira nenhuma virar o Zé. Rejeito o tornar-me Zé, o masculinizar-me como uma necessidade, para performar uma liderança religiosa.</p>
<p align="justify">Como Henri Neweun quero estar sempre diante de mim mesma. Não serei a “persona” serei eu mesma, com a consciência intensa de minha necessidade do Criador sempre diante de mim. Desculpe-me Henri mas isto é prerrogativa do ser mulher e ser mãe. Não preciso dos deficientes mentais para chegar a este estado de consciência.</p>
<p align="justify">Mas não quero tampouco ser uma Débora,(Jz 4 e 5) que profetizou ressentida para Baraque uma vitória que não lhe traria glória. (<em>“Certamente irei contigo, porém não será tua a honra da jornada que empreenderes; pois à mão de uma mulher o SENHOR venderá a Sísera.” Jz 4:9</em>) Por quê ela fez isto? Não podia continuar servindo, anônima mãe de todos, e deixar o pobre do Baraque ou qualquer outro homem, ganhar uma glóriazinha? Algum ressentimento ela tinha contra a raça masculina para agir daquele jeito. Imagine, uma juíza, líder principal de uma nação mais machista do que o Casseta e Planeta. Ela não agüentou o tranco. Azedou. E na primeira oportunidade, tirou dos homens uma glória que lhes caberia. E foi a mão de uma mulher, Jael, que matou o rei com uma estaca na cabeça e que, segundo Débora, o viu estrebuchar entre suas pernas&#8230; Que cena triste e grosseira esta, o homem morrendo no sono, depois de ter sido falsamente bem recebido, e a mulher Jael, a carregar consigo esta imagem, que depois virou cântico na boca de todo Israel. O resultado desta guerra dos sexos foi um Israel afastado do Senhor. (O povo, porém fez o que era mal diante do Senhor). Débora ganhou a batalha mas perdeu a guerra agiu com revanchismo e orgulho e perdeu sua oportunidade de mãe de educar Israel.</p>
<p align="justify">Muitas mulheres líderes se endurecem, se ressentem do machismo e do preconceito com que são tratadas e perdem a sua natureza feminina humilde e simples. E ao perder isto perdem a própria razão porque Deus a chamou para liderança. Deus escolhe mulheres para lugares que precisam de mãe, que precisam de unidade, que precisam de um carinho extra, de um coração extra, de colo, de um peito que amamenta, (não literalmente por favor), uma perspectiva diferente. Por mais que associemos a competência com a dimensão cultural masculina, a liderança que nós mulheres podemos exercer vai trazer sempre consigo a dimensão feminina, o bordado, o estofado colorido, a arte, o bolo, o carinho de mãe, ou que o que quer que isto represente. A não ser que nos tornemos um Zé, versão caricata de homem, ou uma Débora, vitoriosa mais amargurada.</p>
<p align="justify">Quanto a mim como já disse, não serei Zé, nem Débora. Meu coração está vasculhado, varrido, ausente de ressentimentos, e quando os houver vou me expor, e perdoar. Não quero provar nada a ninguém. Nem aos homens nem às mulheres. Sigo meu caminho como Henri Neweun depois de sua experiência na Arca, pensando que o século XXI precisa mesmo é de líderes que saibam amar.</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="right">Publicado originalmente em <a href="http://www.jocum.org.br" title="Jocum Brasil" target="_blank">www.jocum.org.br</a></p>
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		<title>Igrejas locais X Agências Missionárias?</title>
		<link>http://www.jocumeiros.com/2007/11/22/igrejas-locais-x-agencias-missionarias/</link>
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		<pubDate>Thu, 22 Nov 2007 04:00:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Braulia Ribeiro</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Braulia Ribeiro]]></category>

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		<description><![CDATA[A questão parceria ou auto-suficiência vai além do aspecto teológico. Chega até à nossa cosmovisão, ao nosso universo conceitual. O que é igreja para nós?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="right">Por Bráulia Ribeiro</p>
<p align="justify">A questão parceria ou auto-suficiência vai além do aspecto teológico. Chega até à nossa cosmovisão, ao nosso universo conceitual. O que é igreja para nós?</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify">Este discurso é muito comum na igreja brasileira. Se você quer saber mais sobre este assunto leia este artigo. Ele vai te ajudar a entender melhor o corpo de Cristo e a relação missão/igreja local&#8230;</p>
<p><span id="more-31"></span><strong><br />
SOBRE A NECESSIDADE DE SE REINVENTAR A RODA</strong></p>
<p align="justify">O tema: “parceria com agências missionárias” X “igrejas auto-suficientes” tem sido intensamente debatido no Brasil, mas parece que não necessariamente entendido ou resolvido. Muitos pastores e missionários, ora ouvindo um lado, ora ao outro rezam pela cartilha do modismo do momento sem se dar ao trabalho de entender os princípios por trás de uma ou outra idéia. Outros pastores decidem baseados em sua experiência pessoal com as agências missionárias. Se a experiência foi boa, recorrem à parceria, se foi frustrante abandonam esta idéia e começam a construir seus próprios mecanismos enviadores.</p>
<p align="justify">Não pretendo através deste artigo tentar resolver definitivamente a questão, até porque muitos poderiam me julgar como uma voz parcial. Sou missionária, tempo integral com a mesma agência há mais de 20 anos. Mas quero dizer que sou também membro atuante numa igreja local onde tenho me congregado fielmente pelos últimos dez anos, apoiando, com meu esposo, as iniciativas desta igreja sempre que as circunstâncias nos permitem. Não consigo me imaginar vivendo sem o apoio espiritual e social de minha igreja local, e não enxergo a existência da missão na qual eu trabalho sem a igreja, em todas as suas formas&#8230;</p>
<p><strong>A cultura e nossa definição de igreja</strong></p>
<p align="justify">A questão parceria ou auto-suficiência vai além do aspecto teológico. Chega até à nossa cosmovisão, ao nosso universo conceitual. O que é igreja para nós?</p>
<p align="justify">Na verdade, toda a revelação de Deus ao homem está sujeita aos filtros culturais. Deus criou os seres humanos com capacidade de definir seu comportamento e de passar adiante suas crenças e idéias. Isto é: de criar sua cultura.</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify"><strong>O que é cultura? </strong>Neste sentido antropológico, cultura não é ler Machado de Assis, citar os filósofos gregos, nem estudar música clássica mas, sim, um conjunto de comportamentos, crenças e idéias características de um povo, que se transmite de uma geração para outra e que resulta na história do povo, na formação de sua sociedade e na perpetuação de seus valores. Toda comunicação humana se faz através da cultura. A cultura define as idéias usadas para se articular as palavras, os valores que elas expressam, a maneira de falar, a distância com a qual se posicionam os falantes um diante do outro, o tom de voz, e até a dinâmica sofrida pela língua em si.</p>
<p align="justify">Quando pensamos numa flor e dizemos a palavra flor, imediatamente a maciez das pétalas, o cheiro, a beleza de suas formas delicadas vêm à nossa mente. A palavra “flor” está ligada à imagem, à cor e ao cheiro da flor que ela nomeia. Até aí tudo bem, o projeto inicial de Deus para Adão foi o de dar nome ao mundo. (Gn 2:19) Em outras palavras: criar sua língua e sua cultura.</p>
<p align="justify">Mas, como tudo na cultura humana após a queda, algumas idéias foram ligadas a palavras erradas, foram encurtadas, reduzidas, distorcidas no processo de se humanizarem, de se espalhar por sociedades, de sofrer influências da nossa cosmovisão decaída e limitada.</p>
<p align="justify">Veja o que aconteceu com a palavra igreja. Quando falamos “igreja”, no que é que pensamos? Seja o imenso predião barroco católico ou o simpático templinho pentecostal ou os arrojados espaços alternativos das grandes comunidades, sempre o que nos vêm à mente é uma edificação, um espaço físico ao qual chamamos igreja. Mas será que era este o sentido de igreja no novo testamento?</p>
<p align="justify">Mais uma vez os estudiosos desta área estão conscientes de que não era assim e que a imagem que hoje quer nos trazer o conceito nos induz ao erro e até à heresia!</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify"><strong>O que é heresia?</strong> Heresia quer dizer “pensar diferente”, ou professar uma doutrina contrária aos dogmas da igreja&#8230; Na verdade esta palavra foi bem popular na idade média nos tempos da inquisição&#8230; Hoje em dia como não existe uma igreja que seja dominante como foi a católica naqueles tempos, todos nós temos o direito a uma heresiazinha (pensar diferente do outro) ou outra&#8230;</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify">A palavra em inglês para igreja, church, se originou da palavra grega <em>kuriakon</em> que se referia ao local de reuniões, à casa do Senhor, e foi usada por muitos autores antigos. Esta etimologia condiz mais com o sentido atual que damos até à nossa palavra igreja, esta sim derivando diretamente da palavra grega usada no Novo Testamento: <em>ecclesia</em> . Ecclesia em todo seu uso neo-testamentário sempre significa assembléia, e o tipo de assembléia sempre definido pelo contexto. Não há nenhuma circunstância no Novo Testamento em que a palavra ecclesia tenha sido usada no sentido de local de reuniões, ou local de adoração. Igreja, no sentido bíblico nunca foi um templo mas sim as pessoas. Um grupo de pessoas que professam Jesus. E o único requisito para se pertencer à igreja não é ter carteirinha de membro nem estar dentro de um certo templo, mas sim ter recebido Jesus, ter aceitado seu senhorio, e a limpeza dos pecados pelo seu sangue!!</p>
<p align="justify">O conceito “igreja” é um conceito espiritual, não é físico, não é institucional, não é legal, e não é denominacional tão pouco. Estas três últimas palavras de certa forma são sinônimos do mesmo conceito mas são entendimentos bem populares&#8230; Desta interpretação da palavra igreja, “igreja=instituição” se derivou a idéia de que as missões independentes ou missões de fé (que não são as juntas denominacionais) são para-eclesiásticas. Para= paralelo, eclesia=igreja.</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify">De acordo com esta idéia as organizações/agências missionárias não pertencem à ecclesia, mas funcionam ao lado da “ecclesia” para suprir suas deficiências. Quando a ecclesia verdadeira finalmente alcança seu papel completo, as agências deixam de ter função. É como se elas fossem uma muleta da igreja aleijada. Uma vez curada, a muleta deixa de ser uma necessidade da igreja. Ou seja as agências missionárias não tem uma existência legítima do ponto de vista bíblico, mas se legitimizam a partir da deficiência da única expressão legítima da ecclesia que é a igreja institucional. Comparando este raciocínio com a definição de ecclesia não corrompida por nossa cosmovisão vemos que ele é falacioso, ou seja induz ao engano. Se a ecclesia é espiritual em sua essência, não pode ter uma forma definida, seja institucional, seja humana.</p>
<p><strong>As duas faces da mesma igreja no plano redentivo de Deus</strong></p>
<p align="justify">A igreja neo-testamentária que muitos em estudos usam como paradigma absoluto na busca da igreja segundo Deus, na verdade não passava de sinagogas cristãs. Há cem anos antes de Jesus muitos judeus viajavam fazendo prosélitos, por todo o império romano. Os pontos de pregação de Paulo em todas as suas viagens eram as sinagogas judaicas construídas por todo o império e até na Ásia. Paulo construiu sobre estes fundamentos da lei mosaica pregados antes dele . Nestas sinagogas se reuniam judeus e prosélitos gentios, e mais tarde Paulo encontrou-as cheias de gregos que criam mas que não haviam se tornado prosélitos, o que o empurrou para o ministério de ensiná-los a serem cristãos legítimos sem que tivessem que se tornar judeus.</p>
<p align="justify">Esta estrutura organizada em forma de sinagoga judaica é a primeira que encontramos nas páginas do Novo Testamento, mas não é a única. Paulo e seu grupo, uma equipe missionária itinerante, formam a segunda estrutura social, uma outra expressão da mesma igreja. Paulo foi enviado de Antioquia, mas funcionava independentemente com sua equipe. Tomava suas próprias decisões, era economicamente independente quando necessário, ou dependia de outras congregações que não Antioquia, algumas que ele próprio ajudara a levantar. Antioquia o enviara mas não tinha controle sobre ele. Ele se submetia a elas, se reportava a eles mas gerenciava seu próprio ministério de acordo com a liderança de Deus.</p>
<p align="justify">Não podemos ver no Novo Testamento uma definição concreta do funcionamento nem das congregações locais nem da equipe itinerante de Paulo. Mas o que vemos é que as duas estruturas se diferenciavam entre si, eram auto-controladas, mas co-existiam em uma simbiose que criou a estratégia de evangelização no primeiro século e daí em diante.</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify">O missiólogo/sociológo Dr. Ralph Winter estudou estas estruturas em funcionamento em toda a história da igreja e relacionou-as aos termos da sociologia, <strong>sodalidade e modalidade</strong>. A estrutura congregacional não faz distinção entre sexo e idade, não tem pré-requisitos para a entrada, (o cristão a recebe automaticamente no ato de sua conversão) e tem como talento principal a alimentação, o cuidado materno com o crente. Esta estrutura é chamada de modalidade.</p>
<blockquote><p><strong>Modalidade:</strong> Se refere a estrutura da igreja institucional, da congregação local, voltada para gerar alimentar e fazer crescer o crente.</p></blockquote>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify">A outra estrutura chamada de sodalidade já implica numa decisão além da decisão de se aceitar a salvação, implica na aceitação de um estilo de vida alternativo ao da sociedade envolvente. Esta estrutura tem seus requisitos para a aceitação de membros e sua vocação principal é a de desempenhar tarefas específicas dentro do reino de Deus.</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<blockquote>
<p align="justify"><strong>Sodalidade: </strong>Se refere às estruturas missionárias, voltadas para a execução de tarefas específicas necessárias para a proclamação do evangelho.</p>
</blockquote>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify">Ou seja havia naquela época de Paulo e existe até hoje a igreja que ficava (modalidade: igrejas locais) e a igreja que viajava (sodalidade: agências missionárias). Estas duas formas complementares não competem entre si mas vivem pelo mesmo propósito principal: levar o evangelho de Jesus aos confins da terra. O ir ou ficar não era uma questão de chamado porque todos, sem excessão, estavam convictos de seu propósito principal de espalhar o evangelho. Mas o que fazia a diferença era a estratégia do momento. Mas tanto a modalidade quanto a sodalidade não podiam se definir como igrejas locais se isto quer dizer que são isentas de ter a visão mundial do reino. Neste sentido a igreja local que se define unicamente por servir interesses do reino apenas em uma determinada região não existe biblicamente, isto seria o mesmo que dizer que existem cristãos que são salvos só para si. As duas expressões do corpo tem que ter visão mundial, mas só a sodalidade tem no “ide” a sua própria natureza.</p>
<p><strong>A igreja e suas diferentes expressões culturais</strong></p>
<p align="justify">A minha primeira experiência missionária transcultural foi numa tribo no sudoeste da Amazônia. Eu ajudava uma equipe de implantação de igrejas a aprender a língua do povo do local. Estudávamos com afinco, construíamos barracos para morar, pescávamos e plantávamos para comer, numa rotina intensa e equivalente à do povo onde vivíamos. O povo, por ter tido algum contato com o evangelho antes, logo quis reunir-se conosco para ter cultos mesmo não sabendo o que isto significava. Daí a pensarmos que tínhamos realmente uma igreja no local foi um passo.</p>
<p align="justify">A nova igreja, (lembre-se que igreja são pessoas) todos com o conceito igreja/templo na cabeça, logo quis um local de reuniões. Os índios trabalharam para fazer uma casinha palafita com teto de palha e sem paredes que servisse de templo à noite e escola de dia. Os missionários concordaram e já marcaram o programa de cultos: quartas e sábados, cultos gerais; segundas e terças uniões feminina e masculina; e no domingo, duas sessões manhã e noite.</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify">Primeiro a comunidade começou a passar fome aos domingos. Como era dia de escola dominical e o povo não podia sair para pescar, ninguém comia. À tarde, as crianças catavam frutas, as mulheres iam pras roças, mas os homens não saíam atrás de peixe porque era “dia do Senhor”, que passou a ser um dia triste e de muito mau humor ao invés de ser um dia alegre. O número de pessoas que contraíam malária também começou a aumentar. Como tínhamos alguns dias de reunião às noites e todos iam, doentes ou não, os mosquitos faziam a festa. Era o dia de culto ao sangue da seita dos pernilongos locais&#8230;</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify">O funcionamento dos cultos também era complicado. Na hora de cantar todos estavam sedentos e alegres e cantavam até estourar a garganta. Então começava a pregação do missionário titubeante e então todos dormiam até roncar. A “palavra” não estava penetrando nos corações? Seriam eles duros demais? Não estavam mesmo a fim de Deus? Em todos os momentos, exceto naquele, eles se demonstravam profundamente interessados. O que estava acontecendo? Nós não tínhamos muita experiência, nem muita formação missiológica, mas sabíamos que alguma coisa estava muito errada&#8230;</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify">Depois de algumas semanas de experiências frustrantes os missionários se reuniram para&#8230; advinhe o quê? Tentar entender o conceito supra-cultural de igreja&#8230; De repente nós descobrimos que a forma que a igreja tinha do lado de fora não era necessariamente a mesma que iria funcionar entre aquele povo&#8230;</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify">Meu conceito do que é a igreja começou aí a passar por uma grande reforma que perdura até hoje. Pensarmos na igreja como uma instituição denominacional arruinou por muito tempo o trabalho de missões mundiais. Muitos países foram alvos de missões modelo “franchaising” que pareciam mais iniciativas de colonialismo cultural do que de espalhamento do maravilhoso evangelho supra-cultural de Jesus. Até o formato arquitetônico de templos foi copiado de um país para o outro, sem falar em regras de costumes, formato de cultos, modelos de liderança, etc. Ensinos bíblicos foram praticamente transliterados e não adaptados às novas culturas, hinos traduzidos, estilos musicais culturais próprios reprimidos em favor do estilo musical importado, considerado “santo” e muitas outras coisas.</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify"><strong>Franchaising: </strong>Modelo para se estabelecer um negócio reproduzindo-o exatamente igual em outro lugar. Um bom exemplo são as redes de Fast food como o Mc Donalds.</p>
<p align="justify">Não eram mal intencionados os missionários não, é claro. Não saíram de seus países pensando: “Vamos destruir as culturas com nosso evangelho enlatado&#8230;” Claro que não! Se sacrificaram e nos trouxeram a jóia mais preciosa que tinham nas suas vidas: a revelação da salvação no Senhor Jesus&#8230; Mas junto com esta revelação veio também sua definição cultural de igreja, os padrões sociais, organizacionais, musicais e estéticos que constituiam a igreja /instituição pela qual foram enviados.</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify">A igreja espiritual, no entanto, é multiforme. E esta “multiforme sabedoria” de Deus se expressa através das gentes. A igreja espiritual não é etérea, fantasmagórica tampouco. Tem formas explícitas, suarentas, feias ou bonitas, às vezes estranhas ou bem conhecidas que são as gentes. A igreja são as pessoas que a compõem. Digo isto para que tenhamos em mente esta ligação espírito-gente. Não existe ação do Espírito de Deus sem que seja através das pessoas&#8230; Não existe igreja que não seja pessoas e nada além de pessoas.</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify">A igreja do Novo Testamento teve muitas formas. Foi primeiro a igreja ambulante do Pr. Jesus, igreja sem teto, sem templo, sem horário programado para os cultos. Eram pregados sermões bem longos, (sermão da montanha), ou bem curtinhos (quem não tiver pecado que atire a primeira pedra&#8230;) Quem quisesse e fosse chamado por Jesus para ficar em tempo integral poderia (os discípulos). Esta igrejinha se espalhava aonde ele ia, deixava sempre um representante local depois de uma campanha de impacto (o gadareno, a mulher samaritana) e ia edificando sua teologia na medida que as questões eram apresentadas (os vendilhões no templo, o maior no reino dos céus). Tinha campanhas de oração mas o pastor não obrigava ninguém a ir, ele mesmo ia e enfrentava noites de suor de sangue batalhando em oração (getsêmani). Tinha sua expressão missionária, com uma missiologia de adaptação e aceitação cultural bem elaborada que proclamava o evangelho mas que não se preocupava muito com o processo de fortalecimento dos convertidos ou discipulado (o envio dos doze, o envio dos setenta). O final foi de aparente fracasso com o pastor morrendo de morte infame e os discípulos se espalhando desanimados por aí&#8230; Mas o verdadeiro final&#8230; este todos nós conhecemos e somos produtos do tremendo sucesso que foi.</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify">Isto quer dizer então que temos que seguir exatamente este modelo de Jesus? Temos que desinformalizar nossas igrejas e sair por aí? Muitos apregoam esta volta ao modelo da igreja de Atos, ao modelo de Paulo e os apóstolos e até ao estilo de Jesus. Mas não acredito que seja este o caminho. A intenção de Deus ao permitir que nós conhecêssemos o modelo de Jesus e também de Paulo e dos apóstolos da igreja primitiva não era estabelecer paradigmas culturais e sociais que pudessem ser copiados pela igreja de outras eras e tempos. Se fosse assim Deus estaria contradizendo-se a si mesmo.</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify">Qual é a intenção “secreta” de Deus? “Deus me mostrou seu plano secreto e me fez conhecê-lo. (Eu escrevi isto em poucas palavras e, se vocês lerem o que eu escrevi, poderão saber como entendo o segredo de Cristo.)&#8230; O segredo é este: por meio do evangelho os não-judeus têm parte com os judeus nas bençãos divinas. Eles são membros do mesmo corpo e participam da promessa que Deus fez por meio de Cristo Jesus&#8230; E também me deu o privilégio de fazer que todos vejam como funciona o plano secreto de Deus. Por que ele que criou tudo, guardou o seu segredo em todos os tempos. E foi assim para que agora, por meio da Igreja, as autoridades e os poderes angélicos do mundo celestial conheçam a sabedoria de Deus em todas as suas formas.” Ef3:3,4,6,9,10. BLH.</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify">Será que o fato de ter a igreja neo-testamentária sido apenas uma cópia da sinagoga judaica, e de uma equipe evangelísitica judaica significa que a cultura judaica era melhor que as outras por isto Deus permitiu que ela fosse reproduzida onde os discípulos preagaram? Creio que não. Se isto fosse verdade teríamos que dizer que a língua grega também é superior porque foi usada por Deus para escrever o Novo Testamento e teve até termos pagãos como kurios incorporados nos escritos dos primeiros cristãos.</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify">Qual é o padrão que percebemos nisto? Não é certamente que Deus despreza algumas culturas em favor de outras, mas que ele usa os padrões socio-culturais disponíveis para que seu evangelho se encaixe, se adapte, se torne efetivo e relevante. O Cristianismo é considerado pelos historiadores como a religião que mais se adapta a diferentes culturas, línguas e padrões sociais e que mais absorve estas adaptações na história humana&#8230;Não creio que seja à toa que não vemos na Bíblia muitas definições categóricas à respeito da organização social e estrutural para igrejas e agências, para a modalidade e para a sodalidade&#8230; Temos que seguir princípios e não formas&#8230;</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify">Copiar formas é relativamente fácil. O difícil é encontrar as formas culturais adequadas e relevantes para manifestar Deus aos homens&#8230; Paulo entendeu perfeitamente este “segredo”de Deus porque ele transitou entre várias culturas diferentes e viu a ação de Deus se processar transculturalmente, supra-cultural que ela é, se tornando multi-cultural, e não judaica, portanto multi-forme. Deus é o Deus universal, Deus da diversidade e não da uniformidade&#8230;</p>
<p><strong>Uma questão de vida ou morte</strong></p>
<p align="justify">Uma boa estratégia para as nossas modalidades e sodalidades atuais é hoje uma questão de vida ou morte. Não vida ou morte nossa apenas mas das almas perdidas por este mundo afora sem Cristo.</p>
<p align="justify">A falta de estratégias de parceria efetiva tem limitado nosso poder de fogo. Quanto mais poderíamos realizar se a nossa mentalidade não seguisse a mentalidade corporativista mundana mas seguisse a mentalidade do reino de Deus!! Jesus orou para que pudéssemos ser um. Ser um não significa ser igual, mas significa unidade na diversidade. Um completando o outro, cada um na sua função.</p>
<p><strong>Corpovativismo religioso X Unidade</strong></p>
<p align="justify">Porque sentimos necessidade de ter o nosso própio reino auto-suficiente, ignorando outros que já estão fazendo o mesmo trabalho, desprezando o know-how que foi alcançado através de muito esforço pelas missões em anos de trabalho focalizado? Por que temos que reinventar a roda?</p>
<p align="justify">Creio que seja porque ainda não estamos vivendo os princípios de Romanos 12 (mas transformai-vos pela renovação da vossa mente) completamente. Muito da mentalidade mundana empresarial ainda povoa nossa maneira de gerenciar nossas igrejas ou agências missionárias. Que semelhança existe entre o corporativismo, policiado apenas pela coesão de interesses, que vemos no mercado brasileiro em alguns setores, e a unidade com o corpo de Cristo, que teríamos de cultivar? Corporativismo: sistema político e econômico baseado na arregimentação das classes produtoras que, organizadas em corporações, trabalham para seu lucro próprio.</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify">A unidade foi considerada por Jesus como a questão de maior importância para que o mundo viesse a conhecer o verdadeiro evangelho. No entanto vemos na igreja uma tendência para a fragmentação e isolamento das iniciativas de alcance ao mundo. Parece uma contradição. Dizemos que temos uma revelação mais “pura” da verdade do que a que a igreja Católica apresenta, no entanto nós somos os divididos enquanto eles permanecem juntos como uma só instituição.</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify">Podemos achar inúmeras justificativas para isto. Podemos ter unidade na diversidade&#8230; Instituições humanas são falhas e não pretendem apresentar algum modelo divino aos homens&#8230; Através da própria separação institucional podemos alcançar o mundo com mais efetividade, etc.</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify">Na verdade a separação institucional, desde que mantendo a unidade, teria o fim positivo de nos livrar de um mal do qual a igreja Católica Romana sofre desde seus primórdios: o corporativismo. Ou seja o corpo se torna um fim em si mesmo. Começamos a preferir a instituição mantida, ainda que à custa de nossa tarefa principal. Trabalhamos em função de aumentar nosso poder de controle e nosso “mercado”. Queremos que o nosso “nome” seja reconhecido e trabalhamos em favor de espalhar este nome.</p>
<p align="justify">Nós cristãos, já separados por diversos ventos doutrinários, teríamos o privilégio de conservar nossa teologia pessoal e ainda amarmos e valorizarmos as pessoas, também membros do corpo. A liberdade de diferir nos pensamento deveria funcionar como um veículo da unidade. Sem a pressão de achar que o evangelho deveria nos uniformizar no pensamento seríamos livres para amar nosso semelhante cristão e apreciar sua participação diferenciada no multiforme e sábio reino de Deus.</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify">O que nos acontece é, no entanto, ficamos presos numa prisão maior, ao invés de termos esta suposta liberdade. Ou na verdade melhor dizendo uma prisão menor. Nossas denominações se tornam pequenas ilhas de “Verdade Absoluta”. Nos tornamos escravos deste “corpinho” de Cristo, enjaulados por uma visão de Deus vinda de uma janelinha, ao invés de gozarmos com Ele da liberdade de amar a todos e de nos enriquecermos com outras perpectivas.</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify">E pior, como a própria igreja Católica às vezes fazemos da nossa própria unidade em Cristo uma falsa-unidade corporativista ao invés da unidade verdadeira… Até os que conseguem se inter-denominacionalizar e abrir sua alma às diferenças, se tornam presos de um corporativismo religioso concebendo o reino de Deus apenas nos limites da nossa própria instituição, nossas estratégias, nosso entendimento. Só o lugar no qual trabalhamos, e as igrejas com as quais nos relacionamos são “reino”.Só invisto naquilo que vai me dar retorno direto. Qualquer outra coisa que diverge disto está fora do “reino” porque não está contribuindo para o meu reino particular.</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify"><strong>Quais são as características do corporativismo?</strong></p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<ul>
<li> <strong>Lucro próprio.</strong> Em primeiro lugar uma mentalidade empresarial, corporativista ou mundana como queiramos chamá-la, visa sua própria barriga. Se não tem um retorno certo para si, não se motiva a investir. Este retorno pode vir de muitas formas; fama, nome, dízimos, etc.</li>
</ul>
<ul>
<li><strong>Necessidade de controle.</strong> Controle é uma necessidade de quem visa lucros. “- Não tenho como me assegurar do sucesso de meu projeto se não posso controlá-lo diretamente&#8230;” É assim que pensam os empresários. “- Não tenho como me assegurar de que a minha verdade será proclamada corretamente se não tenho liderança direta sobre os projetos&#8230;” É assim que pensam muitos religiosos.</li>
</ul>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<ul>
<li><strong>Imediatismo ao invés de longo prazo.</strong> Esta é uma característica específica da cultura econômica brasileira. Vivendo por muitos anos debaixo da maldição da inflação os empresários se tornaram imediatistas, buscando lucros altos a curto prazo, ao invés de semear para colher aos poucos mas por muito tempo. Da mesma forma na cultura evangélica temos dificuldade de compreender compromissos de longo prazo com missões, preferindo investir em pequenos projetos de resultado imediato ao invés de arcar com responsabilidades financeiras com projetos missionários de longo prazo.</li>
</ul>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<ul>
<li><strong>Visão particular ao invés de visão geral.</strong> Esta característica em especial é muito danosa quando absorvida por “empresários” do reino de Deus. Pensamos sempre em termos de nosso próprio negócio, e não do projeto de Deus por inteiro. Não conseguimos enxergar as necessidades do reino e nos envolvemos com o que diz respeito apenas à nossa pequena empresa. Por exemplo se um bairro já é cheio de igrejas mas não tem uma congregação da nossa denominação o consideramos como um campo missionário para abrir mais uma congregação ao invés de, em parceria com as outras igrejas locais investirmos em projetos sociais por exemplo&#8230;</li>
</ul>
<p><strong>Características da Unidade</strong></p>
<p>Será que preciso alistar aqui as virtudes da unidade cristã? Que tal se começarmos por:</p>
<ul>
<li><strong>Abnegação.</strong> Visamos o “lucro” do reino e não o nosso pessoal. Ainda que este resultado para o reino venha à custa de esforço anônimo, investimento não reconhecido, etc.</li>
</ul>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<ul>
<li><strong>Humildade.</strong> Submetei-vos uns aos outros, diz a Bíblia. O controle é substituído por submissão mútua, respeito e espaço para que cada um dos parceiros desenvolva suas áreas ministeriais específicas.</li>
</ul>
<ul>
<li>
<p align="justify"><strong>Visão de longo prazo.</strong> O reino de Deus, principalmente o trabalho missionário transcultural, o ir-se aos confins da terra, onde o evangelho ainda não foi pregado, não se faz da noite para o dia, mas sim com compromisso de longo prazo. Temos que entender que a maioria dos resultados só vamos ver com Deus no céus&#8230;</p>
</li>
<li>
<p align="justify"><strong>Visão geral. </strong>Em unidade não vemos o reino de Deus dentro da caixa de nosso nome, mas o vemos como um todo. Com isto não competimos mas sim dividimos esforços.</p>
</li>
</ul>
<p><strong>Mea Culpa</strong></p>
<p align="justify">Não podia terminar este artigo sem incorporar como membro da sodalidade que sou, meu sincero arrependimento pelo comportamento que nós temos tido como agências missionárias no Brasil.</p>
<p align="justify">Temos sido independentes, orgulhosos, tentado ser auto-suficientes em muitas áreas e uma delas é o cuidado pastoral de nossos obreiros. Temos deixado de falar com a a igreja local sobre nossas derrotas e fracassos e principalmente deixado de reportar aos primeiros sinais de problema, o que nos evitaria, quem sabe, algumas destas derrotas e fracassos.</p>
<p align="justify">Temos excluído a participação das igrejas nas nossas estratégias de campo, com medo talvez de interferências que não fossem missiológicamente corretas. Mas esta atitude nos impediu de receber muitas idéias boas e estratégias de Deus, e com certeza enfraqueceu nossas parcerias.</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify">Temos dado a impressão de que tudo o que queremos da igreja é o dinheiro. <em>“-Dê-nos sua grana e nos deixe em paz!”</em> Numa atitude arrogante e mercenária, mas que com certeza não expressa nosso coração que deixou tudo o que podíamos ter, carreiras e dinheiro, pela obra! Acho que o que nos faz parecer gananciosos às vezes é a urgência das necessidades a que atendemos, a carência da obra missionária em geral. Mas deixo este julgamento com Deus&#8230; Perdoem-nos irmãos. Somos todos membros da mesma ecclesia! Todos participantes do mesmo Cristo. Um é olho, outro é cabeça, outro é orelha, mas funcionamos como um corpo. Um pertence ao outro. Pertencemos a vocês.<br />
Vamos trabalhar em parceria, em uma perfeita simbiose cristã, para que possamos apressar a vinda de Cristo.<br />
Parceria ou morte!!</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="right">Publicado Originalmente em <a href="http://www.jocum.org.br" title="JOCUM Brasil" target="_blank">www.jocum.org.br </a></p>
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		<item>
		<title>Entre roupas evangélicas e mentes evangélicas</title>
		<link>http://www.jocumeiros.com/2007/11/21/entre-roupas-evangelicas-e-mentes-evangelicas/</link>
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		<pubDate>Wed, 21 Nov 2007 04:00:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Braulia Ribeiro</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Braulia Ribeiro]]></category>

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		<description><![CDATA[Estava lendo a VEJA outro dia e descobri que existem fábricas de confecção especializadas em roupas evangélicas. A revista mostrava várias fotos de uma modelo elegante vestida de evangélica. As roupas até que nem eram feias, nem a reportagem claramente pejorativa. Parecia uma matéria factual, sem tendências, que se atinha a mostrar este setor especializado como a descoberta de um novo nicho de mercado...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="right">Por Bráulia Ribeiro</p>
<p align="justify">Estava lendo a VEJA outro dia e descobri que existem fábricas de confecção especializadas em roupas evangélicas. A revista mostrava várias fotos de uma modelo elegante vestida de evangélica. As roupas até que nem eram feias, nem a reportagem claramente pejorativa. Parecia uma matéria factual, sem tendências, que se atinha a mostrar este setor especializado como a descoberta de um novo nicho de mercado&#8230;</p>
<p><span id="more-30"></span></p>
<p align="justify">Uma coisa destas numa revista de circulação nacional deve nos fazer parar para pensar. Resta saber que ferramentas mentais vou usar para pensar. Afinal de contas, pensar não é fácil e definitivamente temos aprender como. Posso pensar com minha mente carnal, com minha crente brasileira, com mente cristã, e mais umas tantas outras, mas vamos focalizar nestas três no momento.</p>
<p align="justify">A mente carnal gosta de sucesso, fama, projeção&#8230; “<em>-Puxa que bom, estamos na VEJA, isto é sinal que dentro em pouco, quem sabe entraremos em grande estilo nas novelas da Globo, protagonizando romances do tipo dos que acontecem na vida real “evangélica”, fora ou dentro do casamento, não importa, desde que seja da vontade de Deus&#8230;</em>&#8221; (nesta hora a mente carnal sabiamente substitui a vontade humana pela de Deus, mas tudo bem, já sabemos que ela é carnal mesmo, e sua especialidade é usar subterfúgios religiosos para nos enganar). <em>Já estamos na Caras também, o que combina com a pregação de prosperidade que temos nas nossas igrejas, que benção dentro em breve conquistaremos todos os ricos e famosos do Brasil e nossa renda aumentará em muito..”</em>. E por aí a mente carnal iria, neste território, se felicitando pelo feito, pensando em novos mercados para os crentes, água mole em pedra dura, tanto batemos com nosso estilo evangélico de ser, que finalmente conquistamos espaço&#8230;</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify">A mente crente brasileira mais genérica se aproxima um pouco da carnal, infelizmente: “-Ah, bom, estamos na veja sinal de que a sociedade está nos respeitando, e olha só estamos “discipulando” o Brasil numa das coisas que ele mais precisa, na bandalheira são as roupas das mulheres, e com esta conquista de mercado, quem sabe conseguiremos tornar as brasileiras menos sensuais, abaixo a imoralidade, vamos orar contra, e fazer um culto de adoração, porque vestimos o bumbum do Brasil.” É, esta me parece ser a reflexão da mente crente mais comum mas pode ser que hajam algumas variações aqui e ali. Pode haver um grupo que vai se envergonhar, e neste grupo estão os crentes “modernos” que tem como prática cristã o não ter ética no vestir. Mas mostramos o tempo todo que queremos ganhar a moralidade na marra, pensamos que com &#8220;nãos-nãos, sai-sais, e quebra-quebras&#8221;, vamos mudar as pessoas. Pensamos em moral como algo externo, estabelecemos com mais facilidade o que é a prática cristã do que o que é a ética cristã.</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify">Agora vem a dificuldade. Deveria colocar aqui o que pensaria o que considero ser a mente cristã ao ver aquela notícia na Veja. Mas para meu horror, e espero que te cause o mesmo horror que a mim, verifico que não é fácil pensar com uma mente cristã. Parece que tal coisa a mente puramente cristã, desprovida de religiosidade e vícios culturais, a mente não secularizada, não influenciada pela visão de mundo pós-moderna, não embotada por anos de religiosidade alienante, não existe&#8230; Tenho que concordar com o autor Harry Blamires[1] que escreveu um livro para dizer que no mundo atual não existe um pensamento cristão, ou uma mente cristã. Existe a ética cristã, a prática cristã, a espiritualidade cristã. Mas do pensamento cristão, nós crentes estamos longe. O pensamento cristão pensa tendo como referência a Bíblia e a revelação da pessoa de Deus sobre tudo o que existe. Para o pensamento verdadeiramente cristão, não há diferença entre secular e sagrado, religioso e profano. O pensamento cristão não deveria se ocupar apenas do que é religioso e diz respeito à igreja, porquê Deus não criou apenas a igreja, ele primeiramente criou o mundo inteiro.</p>
<p>Tudo o que nos rodeia deveria ser revisto pela ótica divina. Todas as idéias nos interessam as tendências, as sociedades, as sub-culturas. A mente cristã a todos ouve e não se fecha dogmaticamente diante de rótulos. Muitas vezes concebemos um Deus religioso olhando para este mundo, e colocando pessoas em caixas. Este Deus olha e vê uma mulher gritando. Ela foi oprimida por uma cultura machista e repressora, vítima de violência física e abusos de todo tipo. Seu grito que corta o ar é: <em>- “Abaixo a violência contra a mulher!!” Deus olha, franze o cenho e diz: &#8211;“ Hum&#8230; ela é apenas mais uma feminista. Vá obedecer os homens, muié sem vergonha!!”</em></p>
<p>Na esquina tem outro grupo. Desta vez são sem-terra honestos, precisando de terra e de pão. Deus se lembra de ter ouvido este clamor antes, nas obras de Portinari dos homens com mãos grandes, no romance de Graciliano Ramos, quando a migração se dá no inverso, no lirismo da música do Chico Buarque:</p>
<blockquote><p><em>“Zanza daqui</em><em>Zanza pra acolá</em></p>
<p><em>Fim de feira, periferia afora</em></p>
<p><em>A cidade não mora mais em mim</em></p>
<p><em>Francisco, Serafim</em></p>
<p><em>Vamos embora[2]</em></p></blockquote>
<p align="justify">Mas Ele finge não saber de nada disto porque são coisas “do mundo” e rapidamente se recupera daquele momento de compaixão, lembrando-se de que é um religioso, o próprio Deus afinal de contas, e de que não deve se misturar com estas coisas de políticas humanas, afinal no que Lhe interessa são as almas e faz um muxoxo, dizendo com reprovação: “Marxistas&#8230;”</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify">Depois, um pouco entediado consigo mesmo talvez, se volta para seus crentes e se põe a vigiar-lhes o comportamento para saber se vai recompensar-lhes ou não segundo as suas obras&#8230;</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify">Felizmente esta é a visão que nós temos de Deus e não a visão que a Bíblia nos passa. O verdadeiro pensamento cristão integra o mundo e suas necessidades com a fé, entendendo o Deus que na Bíblia se importa sim com desigualdades sociais e faz leis e sanções á respeito, se importa com os oprimidos e miseráveis, se torna o Deus das viúvas e dos órfãos. Deus não tem medo de pensar porque ele não teme perder a fé em si mesmo, aliás ele chama os maiores pensadores do mundo para a argumentação. (A bíblia está cheia de “vinde e arrazoemo-nos, mas não traz nem uma vez uma afirmação do tipo: “-em comunicado especial Deus afirma que ele existe sim, e que não devemos duvidar de sua existência.”) Não nada disto, Deus não se preocupa em afirmar-se, apenas diz: - “o estúpido diz para si mesmo que eu não existo, e todos os homens são indesculpáveis porque os céus gritam para todo lado não só minha existência, mas minha glória&#8230;”</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify"><em>- Xiiii&#8230;. Peraí, vai com calma Deus não se mostre tanto assim, porque pensamos que conhecer sua existência é privilégio dos evangélicos&#8230;</em></p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify">Mas Deus parece nem notar que somos assim exclusivistas e vai se revelando a justos e injustos&#8230; Nem todos os seguem, é verdade, mas até bêbados, na verdade ex-bêbados como o João Ubaldo quando querem dar uma “brechadinha” nas verdades de sua revelação pessoal conseguem, afinal está tudo tão claro ali na Palavra&#8230; Quando escreveu o conto: “O Santo que não acreditava em Deus, João Ubaldo à moda do João da Bíblia entendeu que a essência de Deus é amor e não religião, e visualizou um Jesus se encarnando hoje, de repentinho, no sertão nordestino. E este Jesus se chama Salvador, e não se importa se as pessoas são religiosas ou não, mas ao andar vai conhecendo a cada um, revelando seus segredos para elas mesmas, amando os desamados e respeitando os desrespeitados, tudo isto porquê é com cordas de amor que Ele nos atrai e não com cordas de preconceito e religiosidade.</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify">Nem o cinema ele discrimina e se revela nas mãos de diretores como Spielberg, falando contra o nazismo, o racismo, no rosto de atrizes como Fernanda Montenegro em Central do Brasil, encontrando o amor e a moral numa caminhada com um menino sem pai.</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify">Deus é assim, um cara mais legal do que o que a gente pensa. E o pensamento cristão se existisse como Ele, Deus, existe olharia com surpresa para a tal roupa evangélica. Mas roupa evangélica? Diria a mente cristã: Cadê o amor evangélico, a redenção social evangélica, a transformação de valores evangélica? Mas a surpresa e o choque pela ausência de idéias tão essenciais não lhe impediria de continuar tentando nos ensinar a pensar.</p>
<p><em><br />
Bibliografia</em><br />
<em>[1]&#8220;The Chrisitian Mind&#8221; - Henri Blamires (www.godlife.com)<br />
[2]Assentamento, Chico Buarque, 1997</em></p>
<p align="right">Publicado originalmente em <a href="http://www.jocum.org.br" title="JOCUM Brasil" target="_blank">www.jocum.org.br</a></p>
<p></p>
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		<title>Em busca do missionário ideal</title>
		<link>http://www.jocumeiros.com/2007/11/20/em-busca-do-missionario-ideal/</link>
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		<pubDate>Tue, 20 Nov 2007 20:00:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Braulia Ribeiro</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Braulia Ribeiro]]></category>

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		<description><![CDATA[Houve uma época na nossa base, que já passou, graças a Deus, que nos cansamos de jovens. Nos cansamos da ETED e dos “problemas” que chegavam a cada nova leva de estudantes.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="right">Por Braulia Ribeiro</p>
<p><strong>Cadê o missionário ideal?</strong></p>
<p align="justify">Estamos sempre orando por obreiros, a seara é grande, faltam líderes, faltam mãos para o trabalho, faltam cérebros, faltam joelhos para orar. Ontem à noite recebi um telefone de um casal daqui da base, falando desde uma cidade remota na fronteira de Acre e Peru:</p>
<blockquote>
<p align="justify"><em>“-Ah Bráulia, ore por nós, não sabemos o que fazer, presenciamos muita bandalheira, os políticos da região para se eleger levam caixas de cachaça e álcool puro para as aldeias, embebedam os índios, brigam, espancam os homens e as mulheres. Um deles fez pior, se ajuntou com duas irmãs, engravidou as duas, bate continuamente nelas, ontem derrubou uma das grávidas de um barranco cinco vezes. Todas as vezes que ela se levantava e subia ele a derrubava novamente. Nós vimos e nem assim ele parou. É estúpido e domina o pai das moças com álcool e os irmãos com violência. Temos que denunciá-lo mas ele está ameaçando nossas vidas. Nos seguiu quando viemos até a vila, mas hoje à noite temos um encontro com a Polícia Federal para falar sobre o que acontece na aldeia. ”</em></p>
</blockquote>
<p align="justify">A voz da mulher me contando o que passava tinha um tom resoluto. Ela sabia o queria fazer e não estava com medo apesar das ameaças. Ao mesmo tempo que falava se supria de uma consciência mais intensa de que não podia deixar as coisas como estavam. A denúncia faz diferença entre a mudança daquele mundo onde dominam as armas, o pecado e a falta de lei, para o reino de Deus que eles levavam que significava justiça, respeito e vida nova para os índios e às comunidades brasileiras ao redor.</p>
<p><span id="more-29"></span></p>
<p align="justify">Este casal tem menos de 30 anos, estão aqui há uns cinco anos e na tribo há uns três. Eles tem um filhinho de três anos e lutam com muita dificuldade financeira. Pensei que ainda que tivéssemos altos salários missionários para pagar, (mas não temos, a JOCUM é uma missão de voluntários) nada pagaria a insegurança e o medo que eles estavam vivendo agora e com o qual teriam que conviver sempre depois da denúncia.</p>
<p align="justify">Lembrei-me de como esta moça chegou na ETED. Não era crente direito, nunca tinha vivido uma vida limpa na vida, nem na infância. Vestia-se no dia a dia como quem sai para fazer um programa na noite, e se movia com um gingado de dançarina de cabaré. Várias vezes ouvi os líderes da ETED confabularem sobre ela desesperados pensando se haveria cura para alguém assim&#8230;</p>
<p align="justify">Hoje ela e o marido são missionários que qualquer missão, ou melhor que qualquer organização governamental gostaria de ter reforçando suas trincheiras. Abnegados dedicados, amorosos, íntegros, e mais do que isto, a mulher tem garra de guerrilheira.</p>
<p align="justify">Houve uma época na nossa base, que já passou, graças a Deus, que nos cansamos de jovens. Nos cansamos da ETED e dos “problemas” que chegavam a cada nova leva de estudantes. Começamos a pensar em fazer um escrutínio apurado de todos os formulários, na tentativa de evitar que viessem jovens problemáticos que tem o potencial de consumir toda nossa energia e depois produzir muito pouco ou quase nada para missões&#8230; Queríamos maturidade e não juventude. Me pergunte se deu certo, ou se continuamos assim por muito tempo, que vou te responder que pela misericórdia de Deus não deu certo, e nem continuamos pensando assim. Redescobrimos nosso DNA. E nosso DNA tem a ver com transferência de destino a quem não tem. Como podemos querer maturidade se somos chamados para abrir espaço para os que não-são, para que eles possam pela graça de Deus tomar posse de destinos fantásticos que Deus tem para eles e que de outro modo teriam ficado enterrados&#8230;</p>
<p align="justify">Me apaixonei de novo pela ETED. O Reinaldo começou dirigindo a primeira desta nossa nova fase e eu sigo desde então, já estou na terceira. A palavra que o Reinaldo recebeu logo quando abraçamos uma idéia de uma proposta radicalmente nova para a ETED, foi: “aquele que vier a mim não lançarei fora&#8230;” E assim foi, aceitamos todos. Qualquer um. Gente de rua, gente dos becos, jovens das igrejas e de fora delas. Continuamos assim desde então. Agora que eu lidero na verdade não faço nada, só acompanho a equipe que carrega a ETED, eles também gente nova, sem experiência nenhuma a não ser a sua própria vivência e transformação. Meu co-líder desta vez é o Raul. Ele tem 23 anos e está na JOCUM há dois anos. Tivemos um ano cansativo com muitos eventos e viagens, e já tínhamos dois cursos acontencendo neste segundo semestre, eu estava jogando a toalha e pedindo pro mundo acabar em barranco, quando o Raul chegou pra nós:</p>
<p><em>_ Olha Reinaldo e Braulia Deus está me chamando para a próxima ETED&#8230;<br />
_ Mas Raul, não temos obreiros, todos estão envolvidos em cursos, ou em ministérios fora, (temos equipes na Guayna Inglesa, Barbados, Peru, Equador, e em várias tribos) será que vai ter alguém pra te ajudar?<br />
_ Ah, Deus vai mandar&#8230; Tem o Pimenta&#8230; (Pimenta é um recém-graduado da última ETED, anda sempre de bermudas e meião, um de uma cor outro de outra, de toca colorida na cabeça e seu maior prazer é escrever cartas evangelizando a galera&#8230;.)<br />
_Ah, o Pimenta&#8230; Tá bom então vamos ver Raul.</em></p>
<p>Na próxima reunião o Raul veio de cabelo azul.</p>
<p><em>_ Pintou de azul agora Raul? Ficou bonito&#8230;<br />
_ É, quero que a galera se sinta à vontade quando chegar&#8230;</em></p>
<p align="justify">Oramos juntos, não podíamos divulgar mas Deus foi mandando alunos e obreiros. Alguns vieram de perto outros de longe. Nos reunimos para ver se aceitávamos os alunos que escreviam. Alguns nem escreveram só vieram&#8230; Raul disse: _Traveco acho que não encaro não, muito difícil&#8230; Falou isto, porque eu contei um sonho estranho que tive, em que eu me via como um travesti numa favela e sofria uma dor muito profunda porque ninguém me amava&#8230; Ai que bom, ainda não estamos prontos pra travestis, respirei aliviada. No outro dia esbarrei com uma obreira e um garotinho em frente da minha casa.</p>
<p><em>_ Oi Alessandra, que legal seu filho veio te visitar?<br />
_ Né meu filho não, é a nova aluna da ETED.</em></p>
<p>Fiquei sem graça. Era uma moça. Ela tinha 22 anos e desde os cinco anos se vestia e se comportava como homem. Veio do garimpo para cá e não conhecia Jesus nem a JOCUM. Mas seu pai conhecia e sabia que ela precisava de ajuda. Me reuni com o Pimenta e o Raul. Oramos para buscar a Deus. Tudo o que eu via eram os dois olhos adolescentes da garota. Raul e Pimenta também se comoviam com a compaixão de Deus&#8230;</p>
<p><em><br />
_ Eu também não prestava Bráulia, disse o Raul. Quando eu cheguei aqui na base eu só pensava em me matar. Deus me acolheu e me deu um destino.<br />
_ Eu também não sabia quem eu era disse o Pimenta, hoje eu escrevo cartas&#8230; Ontem escrevi dez, minha mão ficou doendo&#8230;</em></p>
<p align="justify">Olho pro grupo de obreiros e fico animada. Não vejo ninguém especial, nenhum super-estrela, todos jovens. Além do Pimenta e do Raul tem a Ana Rita, baiana que acabou de chegar de alguns meses na Guyana, carinhosa e responsável, tem a Kelly, a Isabel se recuperando de sérios problemas mentais, a Selça e Alessandra ambas novas convertidas, saídas do sub-mundo das ruas. Ninguém que por nossos padrões religiosos seria capaz de arcar com a liderança de uma escola de missões, porque afinal em missões temos que ter a nata espiritual de nossas igrejas&#8230; È verdade, a nata, mas nossos alunos também não representam esta nata. São gente comum, gente como nós, especiais sem ser, trazidos aqui pelo Senhor, seja do Garimpo ou da Assembléia, Deus guiou cada um deles a nossa máquina de redimir destinos chamada ETED&#8230;</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify">Publicado Originalmente em <a href="http://www.jocum.org.br" title="JOCUM Brasil" target="_blank">www.jocum.org.br</a></p>
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		<title>Sobre liderança</title>
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		<pubDate>Tue, 20 Nov 2007 19:51:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Braulia Ribeiro</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Braulia Ribeiro]]></category>

		<category><![CDATA[Liderança]]></category>

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		<description><![CDATA[Os critérios de Jesus parecem ser diferentes dos nossos. Alguns dos chamados eram profissionais, outros jovens, outros até supostos corruptos de carteirinha.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="right">Por Braulia Ribeiro</p>
<p align="right">&nbsp;</p>
<p align="justify"><em>Os critérios de Jesus parecem ser diferentes dos nossos. Alguns dos chamados eram profissionais, outros jovens, outros até supostos corruptos de carteirinha.</em></p>
<p align="justify"><em>Treinar jovens? - Ah&#8230; muito trabalho. - Indígenas? - Ah muito complexo&#8230; - Adultos maduros? - Ah, são muito rígidos difícil de mudar&#8230; </em>Parece que deste jeito nunca vamos encontrar ninguém para a missão.</p>
<p align="justify"><strong>Quem é o missionário ideal?</strong> Para começar a inumerar as qualidades do missionário ideal e ditar as regras de quem deveria ou não fazer missões, eu teria pretender ser melhor que o próprio Jesus.</p>
<p><span id="more-28"></span></p>
<p align="justify">Os doze que Jesus escolheu como principais líderes na proclamação do evangelho ao mundo não eram <em>“grandes-coisa”</em>. Cometeram erros ideológicos sérios, e o primeiro foi pensar que o Messias se limitava a ser o Messias para a turma deles, sendo que Jesus os havia ensinado que seu interesse era por todos os povos. Nem podia ser diferente sendo que ele era a encarnação do Deus universal que criou toda a raça humana. Mas mesmo assim nós que somos quase tão ignorantes quanto estes primeiros apóstolos, (digo quase porque pelo menos mais história debaixo da ponte nós temos&#8230;) temos que ler livros revelativos e desvendadores de nossa cegueira como o <em>Fator Melquisedeque</em> de <em>Don Richardson</em> para percebermos as estratégias de Jesus para ensinar aos seus discípulos seu plano de graça.</p>
<p align="justify">O fato é que os apóstolos mesmo com dificuldade acabaram captando a mensagem, e proclamaram pelo mundo afora, e são modelo para nós hoje o foram por toda a história da igreja, de perseverança e amor por Jesus. Se tivéssemos formulários cheios de critérios para resolvermos se aceitamos ou não os discípulos como apóstolos (que quer dizer missionário) oficialmente não teríamos aceito.</p>
<p align="justify"><em>- Não, este aqui já negou três vezes e ainda nem foi para o campo&#8230; Imagina quando o torturarem, vai apostatar na certa, nunca chegará ao martírio da cruz de cabeça para baixo&#8230;</em></p>
<p align="justify">Os critérios de Jesus parecem ser diferentes dos nossos. Alguns dos chamados eram profissionais, outros jovens, outros até supostos corruptos de carteirinha. E este suposto corrupto foi chamado oficialmente por ele para pertencer à missão, sem nenhum pudor, na frente de todos&#8230;</p>
<p><em><br />
- Mateus, vem.<br />
- Mas, Senhor não arrecadei a féria de hoje, pode até dar um lucrinho básico para ajudar na missão, hein?<br />
- Não me interessa. Venha.<br />
</em></p>
<p align="justify"><em>- Mas&#8230; Senhor, você vai ficar mal falado, estou envolvido no escândalo Albatroz, sou gerente do Maluf, amigo dos anões do orçamento e quando adolescente ajudei o PC na arrecadação da campanha do Collor. Você não se preocupa com a reputação de sua missão?</em></p>
<p><em>- Acho que não, depois da morte de cruz não sobra muita reputação pra mim. Vem.</em></p>
<p>Mateus foi. Imagina quando ele chamou João como não deve ter sido. João estava com seus irmãos pescando.</p>
<p><em>- Jesus cê ta firmeza que me quer. Olha ainda não fiz 18 (dizem que João era jovem quando Jesus o chamou).<br />
- Tô firmeza.</em></p>
<p align="justify"><em>- Mas cara, num sei não, tô afim de uma gatas, e se elas me verem assim missionário vai queimar um pouco meu filme. Sou badboy, meu pai é dono de empresa, se eu for quem vai cuidar do meu pitbull? Eu estava metido numas brigas, não segurei a onda de ficar fora, os caras estavam muito %$#@ e aí entrei e olha a cicatriz na testa. Eu também queria fumar uns, não sei se rola assim andando com você, to nessa desde cedo, minha mãe é separada, minha família é o caos, mas cara tá firmeza mesmo?&#8230;</em></p>
<p>Jesus não disse nada, só deu um abraço nele.</p>
<p><em>- Pai? _João perguntou timidamente.<br />
- Humhum.- Respondeu Jesus. – Te amo meu filho.</em></p>
<p align="justify">João se calou juntou as trouxas e foi com ele. Não brigou, não fumou mais, se tornou um jovem limpeza, dava umas broncas num seguidores de vez em quando com seus irmãos, e teve uma certa sede de ter mais poder no céu que os outros&#8230; Mas foi ser pescador de homens. Acho que é assim com todos nós. O amor dele nos redime. Não fazemos o que fazemos, seja o que for, pastores, missionários por aí afora, líderes de base, porque somos bonzões, ou até porque não temos pecado&#8230; É pela graça dele, porque ele sabe nos amar além do que nós aparentamos ser, ou além do que pensamos ser&#8230;</p>
<p><strong>A JOCUM tem esta unção de desentortar pepino</strong>, de acreditar naquele que ninguém acredita, de dar a segunda chance, a terceira, a quarta se for necessário. O dom mais necessário na liderança do século XXI é o dom de amar. Ninguém é ideal. Só amor nos faz ideal.</p>
<p><em>-Poxa então quer dizer que não existe o missionário ideal?<br />
- Não. Quer dizer que todos somos o ideal. Basta encontrarmos alguém que acredita em nós.</em></p>
<p align="right">Publicado originalmente em <a href="http://www.jocum.org.br" title="JOCUM Brasil" target="_blank">www.jocum.org.br </a></p>
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		<title>Vem dançar comigo, Jesus!</title>
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		<pubDate>Mon, 19 Nov 2007 14:34:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Braulia Ribeiro</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Braulia Ribeiro]]></category>

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		<description><![CDATA[Jesus orou para que, estando no mundo, ficássemos livres do mal, Mais do que uma canção sobre a redenção de uma mulher mal amada, “Valsinha”1 pode cantar também a graça e ser o fundo musical da redenção cultural da igreja de Cristo no Brasil de hoje.
Por vários anos, estivemos como que dormindo. Nosso vestido de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">Jesus orou para que, estando no mundo, ficássemos livres do mal, Mais do que uma canção sobre a redenção de uma mulher mal amada, “Valsinha”1 pode cantar também a graça e ser o fundo musical da redenção cultural da igreja de Cristo no Brasil de hoje.</p>
<p align="justify">Por vários anos, estivemos como que dormindo. Nosso vestido de festa no armário, um complexo de inferioridade acachapante, um gemido sufocado por canção. Apesar de estarmos crescendo, sempre nos sentíamos menores, copiávamos teologias e modismos estrangeiros, espelhávamos nossas igrejas nas de outras terras, enviávamos nossos filhos para estudar fora como que necessitando de uma legitimidade estrangeira que não se achava por aqui.</p>
<p><span id="more-27"></span></p>
<p align="justify">Por muito tempo, tivemos vergonha de nossas formas e modelos tupiniquins, de nossa cosmologia “supersticiosa”, de nossas organizações desorganizadas e flexíveis. Então nos intelectualizamos, usando a vestimenta greco-ocidental. Copiamos idéias outras, conceitos outros, gente outra, deuses outros. Mas&#8230;</p>
<blockquote><p>Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar<br />
Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar<br />
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar<br />
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar&#8230;</p></blockquote>
<p align="justify">A diferença entre Cristo e este marido é que Cristo não está diferente agora, nem maldizia antes a vida, nem deixava a noiva num canto. Mas nós o víamos assim. Nós o víamos um Cristo dos outros, um Cristo europeu, cujo amor por nós não podia ser pleno. Ao contrário daquele índio mexicano que um dia argumentou com Cameron Townsend, fundador da missão Wycliffe: “Se Cristo me ama, por que não fala minha língua?” Nós, ao nos depararmos com o Cristo europeizado, americanizado, não duvidamos de sua divindade e de seu amor, mas duvidamos de nossa condição: Ele não nos ama como somos, com toda razão. Somos muito feios. Somos muito brasileiros, somos muito negros, muito índios, muito ignorantes. O evangelho estrangeirado só veio somar mais dor à ferida de nossa rejeição colonial. Mazombos perdidos em terras sul-americanas, europeus morenos, não gostamos de ser quem somos. Sofremos daquele complexo da esposa de Salomão2. Morenos demais, baixos demais, alegres demais.</p>
<blockquote><p>Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar<br />
Com seu vestido decotado, cheirando a guardado, de tanto esperar<br />
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar<br />
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar&#8230;</p></blockquote>
<p align="justify">Finalmente a noiva despertou. Enxergou o amor do noivo, seu desejo, seu carinho. Finalmente a noiva se entregou e, ao amá-lo, se amou, bêbada de aceitação, de descoberta, de restauração. Finalmente colocou seu vestido de festa e saiu com dignidade para a praça.</p>
<blockquote><p>E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou<br />
E foi tanta felicidade que toda a cidade enfim se iluminou<br />
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos, como não se ouvia mais<br />
Que o mundo compreendeu<br />
E o dia amanheceu<br />
Em paz.</p></blockquote>
<p align="justify">E para receber o amor pleno do noivo, a noiva tinha de estar na praça, em público. Amor oculto, amor de motel é amor ilegítimo, ilegal, restrito. Amor de pracinha é amor público desavergonhado, reconhecido por todos. Ao se descobrir, a noiva se torna feliz, e sua felicidade se espalha como uma luz na cidade escura, como sal sobre a terra insossa, como água sobre o deserto sedento. E o mundo, quando a vê, compreende como deve ser. Ao vislumbrar seu abraço enlouquecido com o Rei do Universo, descobre seu destino, sua identidade, seu norte. E o dia amanhece lindo na noite da ignorância. Assim, a paz, que excede todo entendimento, alcança nossa mente cansada.</p>
<p align="justify">Oh, sim, vem, Jesus! Vem dançar comigo. Restaura minha dignidade, me ama como eu sou, me deseja assim morena, negra e índia, louca de amor por Ti, com meu jeito de louvar e adorar dançante e pleno de ritmos&#8230;</p>
<blockquote><p>Só ama a Deus o povo que se ama.<br />
Ouço a voz do meu amado<br />
Ele me leva ao seu jardim<br />
A sua voz me chamando<br />
Sua mão está sobre mim.<br />
Posso sentir seu perfume,<br />
Sua fragrância de amor<br />
Seu olhar me consome<br />
Sua mão está sobre mim.<br />
Vem, vem, vem dançar comigo, Jesus<br />
Vem, vem dançar comigo<br />
Leva-me em teus braços<br />
Leva-me em teus braços de amor.3</p></blockquote>
<p><em>Notas:</em></p>
<p><em>1 Música de Chico Buarque de Holanda e Vinícius de Moraes, 1970.<br />
2 “Não olheis para o eu estar morena, porque o sol me queimou. Os filhos de minha mãe se indignaram contra mim e me puseram por guarda de vinhas; a vinha, porém, que me pertence, não a guardei” (Ct 1.6).<br />
3 Vem dançar comigo, Jesus, de Davi Silva, 2OO2. </em></p>
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		<title>Cada teologia tem a sociedade que merece</title>
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		<pubDate>Mon, 19 Nov 2007 14:22:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Braulia Ribeiro</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Braulia Ribeiro]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Braulia Ribeiro
O cristão precisa situar-se no mundo em que vive. 
Jesus orou para que, estando no mundo, ficássemos livres do mal, mas parece que insistimos em sair do mundo e continuar com o mal. Afastamo-nos das formas culturais como se fossem malignas por si mesmas, mas permitimos que valores errados nos influenciem, desde que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="right">Por Braulia Ribeiro</p>
<p><strong>O cristão precisa situar-se no mundo em que vive. </strong></p>
<p align="justify">Jesus orou para que, estando no mundo, ficássemos livres do mal, mas parece que insistimos em sair do mundo e continuar com o mal. Afastamo-nos das formas culturais como se fossem malignas por si mesmas, mas permitimos que valores errados nos influenciem, desde que tomem formas religiosas. Afastamo-nos também das indagações do mundo. Como disse alguém: dizemos que Cristo é a resposta, mas para qual pergunta? Já não conhecemos as perguntas que o mundo nos faz.</p>
<p align="justify">Vamos investigar uma idéia que é constante no cinema atual: carma ou escolha. Existe o livre-arbítrio ou seguimos um destino pré-determinado? Vários filmes recentes tratam do assunto. Talvez seja um sinal de que esta nossa megacultura ocidental está descobrindo suas fraquezas, precisando se reinventar, e busca subsídios teológicos para isso.</p>
<p><span id="more-26"></span></p>
<p align="justify">Um desses filmes, o mais poderoso em formar pensamentos, é a série “Matrix”. O primeiro virou “cult”, filme cheio de inovações gráficas e de pseudo-enigmas; digo pseudo porque o segundo filme responde a todos eles e revela o balaio de gato sem fim que é o mundo de “Matrix”. Se o primeiro deixou dúvidas quanto à filosofia dos autores, o segundo traz tudo às claras. Quando Neo (Keanu Reaves) finalmente encontra o “Arquiteto” (que, na cabeça dos diretores delirantes, deve ser uma mistura de Deus como foi retratado por Michelangelo na capela Sistina, e de Bill Gates), este discursa longamente sobre o livre-arbítrio. Propõe que o grande problema do messias é o livre-arbítrio. Ele tem capacidade de escolha, e a usa mal, o que o coloca num círculo infinito de novas tentativas, forçado a repetir o mesmo destino cármico de fracasso, deixado pelo que veio antes dele&#8230; Sei lá se entendi mesmo essa bagunça hinduísta-exotérica-digital, que é o retrato perfeito do pós-modernismo. Mas esse vale-tudo filosófico traz à cabeça da geração atual uma importante pergunta: podemos escolher nosso destino? Ou temos apenas uma falsa sensação de liberdade, criada pelo arquiteto sádico desta matrix em que vivemos?</p>
<p align="justify">A história de “Minority Report”, de Spielberg, é mais simples. Num futuro não muito distante decide-se testar um programa para evitar assassinatos. O programa é parte da polícia local, chamada Divisão Pré-crimes, que se baseia em informações transmitidas por três videntes, chamados Precogs. Os videntes são capazes de ver os crimes antes de acontecerem. A polícia corre ao local e evita o crime, prendendo o pré-criminoso, que é tratado como um criminoso de fato, apesar de não ter cometido nenhum homicídio.</p>
<p align="justify">A história esquenta quando os videntes têm uma premonição de um crime que o próprio chefe da polícia John Anderton (Tom Cruise) cometeria. As imagens dele matando um homem que ele nem mesmo conhecia aparecem na tela das premonições. O feitiço se volta contra o feiticeiro. O chefe dedicado se vê vítima do sistema no qual confiava plenamente. De acordo com este sistema, um pré-criminoso é um criminoso real, porque o futuro visto pelos videntes é tratado como uma realidade inexorável.</p>
<p align="justify">Alguns teólogos já disseram que se o futuro é conhecido (seja por Precogs ou por Deus), o livre-arbítrio não existe de fato. Tudo obedece a um desenho previamente feito — uma vontade soberana que engole todas as outras vontadezinhas em seu grande útero.</p>
<p align="justify">Essa “teologia” gera a sociedade do pré-crime. A predeterminação torna essa utopia possível, até desejável. Basta que conheçamos o destino programado para cada um e nos encarreguemos de protegê-lo desse destino, prendendo pré-assassinos, eliminando intra-uterinamente alguns indivíduos cujo mal inerente o justifique. Se os Precogs conseguissem prever um novo Hitller ou um novo Saddam, sua eliminação seria automática.</p>
<p align="justify">Esse futuro pode estar mais perto do que imaginamos. A genética moderna sofre da mesma síndrome dos Precogs. Alguns cientistas afirmam que existem genes responsáveis por comportamentos morais. No futuro, um exame de sangue poderá nos dar as dicas que precisamos, poderá desenhar o perfil do indivíduo — se assassino, estuprador ou franco-atirador. Será um mundo limpo. Um hemograma, um perfil genético, e a sociedade do pré-crime se arma de razões para processar, prender e até eliminar seres humanos.</p>
<p align="justify">Essa utopia é um produto direto de nossa teologia cristã. Somos o que cremos. Nossas crenças são a base de tudo o que construímos. A teologia da predeterminação está no coração da cultura ocidental, desde Philo e Agostinho. Também está no coração das sociedades islâmicas fundamentalistas, absolutas e totalitárias: “Maktub” — está escrito. Será Deus o mesmo Alá?</p>
<p align="justify">Mas, e se fosse diferente? Se, em vez de teologarmos e filosofarmos, acreditássemos puramente na Bíblia? Ela diz que Deus se arrependeu de ter feito o homem (Gn 6.6). Ao descobrir que o ser livre que havia criado escolheu negar-lhe amor e ainda afrontá-lo com uma impiedade além de todos os limites, Ele sofreu. Sofreu tanto quanto um homem que, tendo tirado uma mulher da mais suja lama moral, drogada, suja, prostituída, se casa com ela, tem filhos, constitui uma família. Um dia este homem chega em casa e não vê sua esposa. Ela voltou para as ruas. Preferiu a lama, as drogas, o sofrimento degradante. O marido sofre agora, não por si mesmo, mas pelo destino que sua amada escolheu e que a fará sofrer. Essa é a metáfora proposta por Deus para falar de seu amor pelo povo de Israel, no livro de Oséias. Alguns teólogos que me desculpem, mas esta não é a imagem de um Deus-Alá indiferente e soberano sobre a vontade humana.</p>
<p align="justify">Todas estas, além de inúmeras outras passagens literais e metafóricas da Bíblia, perdem o sentido se o futuro for causado, se o livre-arbítrio humano não for real, mas um artifício divino para nos dar apenas a impressão de liberdade. A Bíblia passa a ser um livro sobre a grande matrix ilusória de Deus, e não o livro destinado a nos descortinar a verdade sobre o amor de um Deus que espera para ser amado, que nos pede para escolher a bênção em vez da maldição.</p>
<p align="justify">Engraçado que, diferente dos idealizadores de “Matrix”, o judeu Steven Spielberg escolhe como final esta última versão da verdade sobre o ser humano. No final a sociedade do “Minority Report” redescobre que é livre. O chefe da polícia, quando encara face a face o seu próprio crime, é surpreendido pela voz da vidente que lhe diz: “Não! Você é livre para não matá-lo.” O próprio criador do sistema, Lamar (Max von Sydow), que por anos seguidos prendeu pré-criminosos, também se vê de frente com o seu próprio destino. A visão de seu pré-crime aparece na tela. Com uma arma na mão, encara Anderton, que lhe diz: “Se você me matar, vai para a cadeia, mas prova para todos que você está certo”.</p>
<p align="justify">No entanto, ele próprio se sabe livre e atira contra si mesmo, numa confissão desesperada de fracasso. A sociedade se liberta da arbitrariedade do pré-crime, antes consagrada como a solução de todos os males. Os pré-criminosos voltam às ruas e deixam de pagar pelo que poderiam ter feito, mas nunca fizeram. E todos respiram aliviados por se verem restaurados novamente à sua dignidade de seres humanos no comando de seu destino.</p>
<p align="justify">Ligados a uma rede de fios, mergulhados numa piscina azulada que lhes mantinha aquecidos, os Precogs eram uma visão grotesca no início do filme. O local onde ficavam chamava-se templo e não era visitado por ninguém. Eles não eram capazes de interagir. Sua única função era prever o futuro. Eram três, uma trindade divinizada (coincidência?) e seus policiais do pré-crime eram chamados de sacerdotes. No fim, invalidadas suas previsões, recobram sua humanidade e voltam a viver como qualquer outro ser humano, numa metáfora que me faz pensar em Salmos 78.41, Isaías 53, Lucas 23 e tantas outras passagens que nos mostram o Deus supremo limitando-se em seu próprio poder por nos ter feito livres e sujeitando-se à morte na cruz para assim, apesar de nossas escolhas erradas, poder nos redimir.</p>
<p align="justify">Se verdadeiro livre-arbítrio implica uma definição diferente para a onisciência divina não me importa. Se o livre-arbítrio respalda a idéia da meta-história, que se desenrola para Deus na eternidade e para os homens na terra, numa interação dinâmica e temporal da divindade com a humanidade, também não me importa. Se é armeniana ou calvinista esta idéia não me importa. Como os judeus, povo tribal sem pretensões filosóficas, não pretendo dissecar Deus e sua vontade como se disseca um defunto numa aula de anatomia. Para mim, a teologia verdadeira é aquela que me aproxima dele e de seu amor.</p>
<p align="justify">Spielberg tem razão em sua crítica às incoerências da teologia cristã. O Deus do Antigo Testamento não escolheu o caminho mais simples, o de eliminar a possibilidade do mal, criando um jardim perfeito de autômatos sem vontade. Conviver com a possibilidade do mal, permitindo-nos ser capazes de discernir e escolher entre o bem e o mal, foi um caminho mais arriscado, mas que tornou possível o amor. Que Deus nos permita continuar crendo nisso. Cada teologia tem a sociedade que merece. Uma proposta “teo-filosófica” diferente poderia mudar o futuro do mundo? Resta a nós, cristãos, decidirmos.</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="right">Publicado originalmente em <a href="http://www.jocum.org.br/" title="Jocum Brasil" target="_blank">www.jocum.org.br</a> .</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
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		<title>Sou a criatura do que vejo</title>
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		<pubDate>Mon, 19 Nov 2007 13:58:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Braulia Ribeiro</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Braulia Ribeiro]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Braulia Ribeiro
Lembra-se daquele cego que Jesus curou primeiro parcialmente, depois totalmente?
 Primeiro ele viu pessoas como árvores. Alicja Iwanska, citada num livro de Paul Hiebert, diz que temos a tendência de ver pessoas que não são parte do nosso contexto social imediato como parte da paisagem, ou um pedaço de mobília(1). Creio que ver [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="right">Por Braulia Ribeiro</p>
<p>Lembra-se daquele cego que Jesus curou primeiro parcialmente, depois totalmente?</p>
<p align="justify"> Primeiro ele viu pessoas como árvores. <em>Alicja Iwanska</em>, citada num livro de <em>Paul Hiebert</em>, diz que temos a tendência de ver pessoas que não são parte do nosso contexto social imediato como parte da paisagem, ou um pedaço de mobília(1). Creio que ver as pessoas assim é ver como o cego: “Vejo pessoas; elas parecem árvores andando” (Mc 8.24, NVI). Jesus precisou curá-lo duas vezes para que ele ficasse livre desse problema.</p>
<p align="justify">Um dia, durante o culto semanal de nosso grupo missionário, recebi esta cura. No louvor, uma alemã hipponga, de trinta e poucos anos, tocava violino. Ela e o marido têm quatro filhos e fazem um trabalho difícil numa tribo. Passar noites atolada no barro da estrada que dá acesso à tribo é comum no seu dia-a-dia de mãe missionária. É uma heroína, dessas saídas dos livros dos heróis da fé. Ao lado dela, uma maranhense cheia de unção e coragem, que também trabalha com o marido e dois filhos, implantando uma igreja viva numa tribo, à custa de muito jejum e oração. Mais ao lado, tocando violão, ainda um tanto tímida, uma mocinha católica, toda tatuada, recém-chegada para o curso básico. Pela primeira vez, depois de três semanas aqui, ela consegue cantar. Está livre, adorando como se nunca o tivesse feito antes.</p>
<p><span id="more-25"></span></p>
<p align="justify">No meio do povo, uns adoram, outros correm atrás de bebês, outros fazem uma roda para adorar com alguns pequenos. Começo a perceber cada um. Sei a história da maioria. No dia-a-dia, a gente nem vê o valor de todos eles. Vejo o argentino que trabalhou como caminhoneiro por 7 anos só para se preparar a fim de voltar para o meio do povo indígena para o qual Deus o chamou. Vejo uma chilena num canto, filha de uma ex-militante da esquerda chilena; sua mãe sofreu horrores durante a ditadura antes de morrer. Tão cheia de garra quanto a mãe, luta sozinha para preservar uma tribo que vai desaparecendo. Os velhos da tribo têm um profundo respeito por ela, que, por sua vez, trata a todos por “senhor”. Um velho chefe morria de câncer e não permitia que ninguém o medicasse ou o levasse ao médico. A única pessoa em quem confiou foi ela, e apenas dela recebia a medicação contra dor até seus últimos dias de vida. Todos os “brancos” que ele havia conhecido até então eram canalhas. Mas Zita, a chilena, era Jesus de verdade para ele. Vejo também a carioca Sônia, ex-mãe pequena de santo, que anda pra lá e pra cá na sua bicicletinha, servindo em vários ministérios, louvando, se sacudindo também pra lá e pra cá.</p>
<p align="justify">Viro pra trás e lá está o Emanuel, sueco alto e magro, sempre atolado de trabalho até o pescoço, servindo nas necessidades mais diversas, desde design gráfico até construção, administração e saúde. Ele é casado com a Rute, uma moça do sertão nordestino. O nome deles é serviço. Valorizam cada tarefa aparentemente banal como se fosse a coisa mais importante do mundo. Colossenses 3.17 — “Tudo o que fizerem, seja em palavra ou em ação, façam-no em nome do Senhor Jesus, dando por meio dele graças a Deus Pai” — é uma realidade na vida deles.</p>
<p align="justify">Na frente estão os novatos, na sua maioria moças, dos mais diferentes passados e lugares. Junto com uma jovem que trancou o curso de medicina para se dedicar a Deus por um tempo, está sentado um jovenzinho que ganhava a vida catando lixo no monturo. Nos olhares, vejo um brilho de expectativa pelo novo. Eles sabem que Deus não é medíocre nem comum. Estão começando a sentir que a vida deles faz diferença e que o Criador do universo tem um futuro especial para eles.</p>
<p align="justify">É, naquele dia vi as pessoas como mais do que apenas árvores. Vi sonhos sonhados por Deus realizados na vida de cada um daqueles “meros missionários”. Senti-me forte, eu também, amada por Ele e me lembrei do poema de Octavio Paz:</p>
<blockquote><p>Me vejo no que vejo<br />
Como olhar em meus olhos<br />
Com um olho mais límpido<br />
Me olha no que olho,<br />
É minha criação<br />
Isto o que vejo<br />
Perceber é conceber<br />
Águas do pensamento<br />
Sou a criatura do que vejo&#8230;2</p></blockquote>
<p align="justify">Eu sou o que vejo. Sou a visão que tenho, os sonhos que sonho. Sou o bem que vejo nas pessoas e a esperança que tenho mesmo contra a esperança. Minha missão não é medíocre nem comum, nem é a de ninguém que reflete a imagem dele. Sou a criação do que vejo. Que assim seja.</p>
<p><em>Notas </em><br />
1. In: <strong>HIEBERT</strong>, Paul. <strong>Cultural Anthropology</strong>. Michigan, EUA: Baker Book House, 1983, Preface to second edition, p. xxi.<br />
2. Octavio Paz. Tradução: Haroldo de Campos</p>
<p align="right">Publicado originalmente em <a href="http://www.jocum.org.br/" title="Jocum Brasil" target="_blank">www.jocum.org.br</a> .</p>
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