Uma palavra as mulheres

Posted by on 23 23UTC novembro 23UTC 2007 | 19 comments

Uma palavra as mulheres

Uma jornada no “campo masculino” entre Henris, Zés e Déboras

Como homens estatísticamente lêem menos que mulheres, (o que será que é isto? Estão contando rótulos de produtos do supermercado, listas de compras, ou será que fazemos melhor uso do pouquíssimo tempo que temos?) com um título destes estaremos totalmente à vontade aqui para fofocarmos no nosso clube da Luluzinha.

Estou começando agora a exercer uma liderança nacional para a missão e me sinto engatinhando em um terreno quase que totalmente masculino. É uma sensação estranha, é como estar fora de seu país tentando falar uma língua estrangeira, ou estar como uma criança nadando numa piscina de bolinhas de plástico (por que elas gostam tanto daquilo?). Se usa sinais corporais que poderão ser totalmente mal-interpretados, não existe risadinhas de cumplicidade nem idéias implícitas, suas idéias e motivações são denudadas e feitas em pedaços o tempo todo. Para chegar aqui foram anos andando neste mesmo terreno, (até aí, nada de novo no front), por conta própria, sem ter a consciência do que estava acontecendo. Mas agora é oficial. O saber-se oficialmente líder tem um peso horrível. É quase um aleijão. Se antes me sentia adequada para ser ninguém, no entanto seguir os passos de Deus em qualquer terreno, agora tenho o rótulo oficial e irônicamente toda a segurança e sensação de certeza se foi. Não sei mais quem sou. Serei o que eles esperam que eu seja? Ou serei eu, eu mesma, como sempre fui, apenas agora oficialmente em uma função da qual se espera sei lá o quê? (Creio que ninguém sabe ao certo, o que se espera desta função, só se sabe no fundo, que o quer que seja que acontecer, vai estar sempre aquém das expectativas, vai ser sempre menos, e sempre inadequado. Este é um problema que brasileiro tem em relação a liderança em geral, mas deixa isto pra outro dia.)

Constato num momento de introspecção que não mudei. Sou eu aqui, comigo mesma, ouvindo ou não a Deus, andando no meu dia a dia ao redor de minha casa, da base, das pessoas, obreiros e pastores, como sempre andei, não emagreci nem engordei, não fiquei mais bonita (quem dera), nem mais feia (ainda bem), nem mais espiritual, nem melhor nem pior por causa do cargo oficial. Ainda sou eu mesma no meu dia a dia com meus filhos que a medida que crescem me fazem ter mais consciência da minha insuficiência e necessidade desesperada de Deus.

Dentro de sua própria casa não existe falsa religião. Ou você é ou não é e seus filhos sabem. Eles sabem quando você erra com eles, e te cobram se você não se arrepende. Eles te conhecem por dentro e por fora, sabem o que te estressa, e o que te acalma, te sabem em seus maus e bons momentos. Deus, como é que eu, hoje neste púlpito, ontem pequei contra minha filhinha, me irritando com a criancisse dela, me perdoa e me envolve em sua graça. Com mãe é assim, não tem performance espetacular em um dia no shopping, ou no parquinho, vantagem que os pais as vezes levam. Tem um dia a dia intenso de cobranças ações e reações, todas esmiuçadas nos detalhes pelos filhos, marido e sua própria consciência.

É esta consciência que trago para dentro deste papel de líder que agora exerço. Consciência da minha inadequação e incapacidade. O cargo não sou eu. Não sou eu aquela que prega, que decide, que se reúne com outros executivos, para executar execuções religiosas. Eu sou aquela que meus filhos conhecem. Aquela que conversou com eles ontem à noite, apesar do cansaço, ou que apenas escolheu ignorá-los e se refugiar num livro.

Henri Noweun é uma jóia do pensamento cristão do século vinte. Lê-lo não é só um exercício de espiritualidade mas também um ato de bom senso. Ele não só conseguiu teorizar e ensinar um cristianismo relevante no meio deste mundo pós-moderno sem se contaminar, mas também viveu de acordo com ele. Foi professor em Harvard e Notre Dame, escritor de sucesso, conferencista. Um dia se descobriu embriagado por esta “persona” bem sucedida, e decidiu se afastar e se dedicar ao tratamento de deficientes mentais numa comunidade afastada do mundo. Não punindo a si mesmo, mas seguindo a clara e singela voz de Deus no seu interior. No seu livro: “O líder do século XXI” ele faz a diferença entre a performance religiosa e o verdadeiro ser espiritual. Para resumir o livro em poucas palavras ele teve que se tornar gente, (coisa que só conseguiu entre os deficiente mentais) descer do pedestal de professor de Harvard, autor de vários livros para descobrir de novo a relevância de Jesus e do evangelho na sua própria vida.

Enquanto lia pensava sobre a diferença entre a cultura masculina e a feminina. O homem pode com facilidade se embriagar pela sua própria persona o tempo todo. A mulher não tem como, a não ser que ela se torna dançarina de axé, neste caso ela deixa de ser uma mulher completa para se encolher ao tamanho de sua anatomia traseira, tornando-se apenas um “derrier” bonito. Veja a Zélia, (uma paixão), ministra, economista, professora, mas será eternamente lembrada como a mulher carentes das paixões arrojadas.

A Marisa Monte no disco tribalistas se chamou de Zé, numa das músicas em que explica o porquê e a natureza do grupo. Arnaldo, Carlinhos e Zé. Talvez ela se sente masculina, brilhante musicista que é, compositora, arranjadora, num mundo onde raras mulheres se atrevem a entrar. A Marisa virou o Zé. Foi a resposta dela a esta cobrança cultural desmedida. Me deixem em paz, eu sou compositora, não importa meus namoros, quem eu beijo, se eu sei cozinhar ou só fritar ovo, eu sou o Zé. Posição cômoda. Mas eu, não acho que devo virar o Zé também. Aliás, me comprometo aqui com vocês a de maneira nenhuma virar o Zé. Rejeito o tornar-me Zé, o masculinizar-me como uma necessidade, para performar uma liderança religiosa.

Como Henri Neweun quero estar sempre diante de mim mesma. Não serei a “persona” serei eu mesma, com a consciência intensa de minha necessidade do Criador sempre diante de mim. Desculpe-me Henri mas isto é prerrogativa do ser mulher e ser mãe. Não preciso dos deficientes mentais para chegar a este estado de consciência.

Mas não quero tampouco ser uma Débora,(Jz 4 e 5) que profetizou ressentida para Baraque uma vitória que não lhe traria glória. (“Certamente irei contigo, porém não será tua a honra da jornada que empreenderes; pois à mão de uma mulher o SENHOR venderá a Sísera.” Jz 4:9) Por quê ela fez isto? Não podia continuar servindo, anônima mãe de todos, e deixar o pobre do Baraque ou qualquer outro homem, ganhar uma glóriazinha? Algum ressentimento ela tinha contra a raça masculina para agir daquele jeito. Imagine, uma juíza, líder principal de uma nação mais machista do que o Casseta e Planeta. Ela não agüentou o tranco. Azedou. E na primeira oportunidade, tirou dos homens uma glória que lhes caberia. E foi a mão de uma mulher, Jael, que matou o rei com uma estaca na cabeça e que, segundo Débora, o viu estrebuchar entre suas pernas… Que cena triste e grosseira esta, o homem morrendo no sono, depois de ter sido falsamente bem recebido, e a mulher Jael, a carregar consigo esta imagem, que depois virou cântico na boca de todo Israel. O resultado desta guerra dos sexos foi um Israel afastado do Senhor. (O povo, porém fez o que era mal diante do Senhor). Débora ganhou a batalha mas perdeu a guerra agiu com revanchismo e orgulho e perdeu sua oportunidade de mãe de educar Israel.

Muitas mulheres líderes se endurecem, se ressentem do machismo e do preconceito com que são tratadas e perdem a sua natureza feminina humilde e simples. E ao perder isto perdem a própria razão porque Deus a chamou para liderança. Deus escolhe mulheres para lugares que precisam de mãe, que precisam de unidade, que precisam de um carinho extra, de um coração extra, de colo, de um peito que amamenta, (não literalmente por favor), uma perspectiva diferente. Por mais que associemos a competência com a dimensão cultural masculina, a liderança que nós mulheres podemos exercer vai trazer sempre consigo a dimensão feminina, o bordado, o estofado colorido, a arte, o bolo, o carinho de mãe, ou que o que quer que isto represente. A não ser que nos tornemos um Zé, versão caricata de homem, ou uma Débora, vitoriosa mais amargurada.

Quanto a mim como já disse, não serei Zé, nem Débora. Meu coração está vasculhado, varrido, ausente de ressentimentos, e quando os houver vou me expor, e perdoar. Não quero provar nada a ninguém. Nem aos homens nem às mulheres. Sigo meu caminho como Henri Neweun depois de sua experiência na Arca, pensando que o século XXI precisa mesmo é de líderes que saibam amar.

 

Publicado originalmente em www.jocum.org.br

19 Comments

  1. Obrigada!! Eu tbem não quero ser um Zé e tão pouco uma Débora.

  2. Parabéns pela lucidez e sabedoria. É exatamente a tese do meu livro: o resgate do feminino. Resgatar o princípio feminino em vez de nos masculinizar. Um princípio que foi negado aos homens e negligenciado pelas mulheres. Um convite para homens e mulheres!
    Me identifiquei também com a visita ao Dom!
    Um grande abraço,
    Isabelle
    Leia a biografia da Marina: uma mulher que sabe integrar o princípio feminino e masculino!

  3. Paz Missionária Braulia!
    Ouvir falar de você esses dias durante um projeto social, quando dividia com um casal de missionários, que fizeram o ETED na base “Porto Velho” sobre sua liderança, um chamado no meu coração para também para fazer ETED.
    Acabei agora de conhecer quase todo esse site da JOCUM BRASIL. Estive lendo também outro artigos(nosso encontro com Dom).
    Deixo aqui meu comentário com grande satisfação por ver o quanto Deus tem usados pessoas para falar ao nossos corações.
    Parabéns pelo Ministério!

  4. maravilhoso!
    desnudou a minha alma!

  5. Esta glória é de Deus na sua vida. Que Ele continue usando a sua vida, para mais e mais revelações e conhecimento para nós mulheres.

  6. Não tem como ler um artigo de Braulia sem me comover, sem ter uma nova experiência com Deus! Sua autenticidade é algo tão lindo que acredito que seja isso o que mais alegra o coração de Deus minha querida Braulia.
    Você consegue expressar o que muitos de nós cristãos não consegue; lendo esse artigo me vi como uma criança de uns 2 anos caminhando sozinha, sem direção, e comecei a clamar que Deus me pegasse pelas mãos e me conduzisse.
    Assim acredito que Deus fará sempre com você se mantiver seu coração humilde e sincero a Deus.
    Você foi my teacher por alguns dias no 2o semestre do Transcultural 2009 – sua sinceridade e transparencia com a gente foi o que mais me marcou! Parabéns por ser assim como vc é: simplesmente você!

  7. Maravilha tudo isso!

  8. ola querida gostaria de um imformaçao
    sera como obrira de uma base da jocum eu posso trabalhar en algum pariodo
    sabe porque eu ensino erte culinaria e atraves desa arte eu falo de jesus
    quando terminei a minhs etd com aminha familia
    eu fui pra suiça trabalhar com ese obejetivo fiquei 6 meses agoraestou orando praver adireçao de DEUS pra minha vida
    as minhas duasfilhasjasao obrira en uma base
    eu estou esperando em DEUS e orando por umadireçao
    quero ser bençao por onde passar e marcar a vida de muitas mulheres com o meu testemunho en JESUS
    amiga achei muito interessante a sua pagina
    que DEUS continui te abençoao

  9. Parabéns pelo equilibrio da Visão da Mulher segundo os olhos de Deus e de seu Ministério em seu reino.
    Que todas as mulheres possam dizer como o apóstolo Paulo: “Pela graça de Deus, sou o que sou, e sua graça não foi vã para comigo”.

    Deus continue te aperfeiçoando nele para o louvor dele.

  10. Estimada irmã,
    Tenho lido artigos que escreveu e ouvi o”Chamado Radical” e fico impressionada com a forma como você escreve, de forma clara, engraçada e profunda que faz me refletir sobre certas questões e esse artigo foi fantástico, parabéns, tenho buscado resgatar em mim a feminilidade que às vezes sinto que tenho receio em expressar por me fazer ficar tão vulnerável, mas entendo que Deus nos fez assim para isso mesmo, obrigada e Jesus abençõe seu ministério.
    No amor de Cristo,
    Andrea

  11. Meu Deus!!!

    Como é bom saber que o Senhor tem dado sabedoria a seus filhos,capacitado,escolhido,direcionado…
    Que o Espirito Santo seja sempre sua essência..

    Abraços

  12. Amada,gostaria de saber o endereço da Jocum de Belem do Para(ananideua),pois estou certa do chamado de Deus em minha vida.
    Referente ao artigo muitas mulheres estao passando afrente dos homens realmente e com isso estao mais rigida as vezes mais severa que os homens de Deus.temos que enteder que cabe a cada um realizar suas tarefas.

  13. paz!!
    tremendo!!!! tenho visto muitas mulheres “zés” por ai…
    faltam mulheres assim que se importam em servi a Deus e não provar nada a ninguém!! irmã vc é benção pura!!!

  14. Olá,
    parabéns Bráulia pelo artigo!
    Como mulher, entendo perfeitamente a necessidade que temos de entender nosso papel, o mundo tem colocado a mulher numa situação de total “des-femilidade”(se é q existe essa palavra);a mulher correu muito e não consegue mais usar o freio ou até mesmo quando pode desacelerar;impressionante!!mas acredito na mulher segundo os padrões que Cristo ensinou! e Bráulia colocou isso muito bem: mulher é acolhedora, mãe, amiga, sensível…independente do lugar ou da “função” em que ocupa. Parabéns, Bráulia! Deus continue abençoando você!

  15. Quanto a Débora … não a percebo de forma ressentida e entendo que a compreensão do contexto define a palavra que ela dirigiu a Baraque porque uma mulher acostumada a aconselhar como ela já havia recebido reconhecimento diferenciado por ter intimidade com a voz de Deus, especialmente no contexto cultural do texto bíblico quando, isso era a exceção e a estratégia que ela recebeu de Deus produziu a vitória que por si só confirmou sua sensibilidade prófética ou a sua habilidade de ouvir a Deus.

    Nem de longe a vejo querendo glória alguma. Ela simplesmente constatou o que ocorrería em razão de sua influência.

  16. Que as diferenças existem é inquestionável. Parece que a mulher sempre tem algo para provar onde lidera . Admiro a tua autenticidade e desejo que sirva de modelo para tantas líderes que, inseguras, poderão aprender um pouco.
    Penso que algumas diferenças de projeção são necessárias porque Deus mesmo criou uma estrutura hierárquica na qual a mulher casada é “liderada” pelo seu marido e o homem necessita ser requisitado como uma linguagem de amor que ele decodifica . Se o casal estiver unido para reconstruir as perdas do Éden, muito poderá ser feito no Reino de Deus e contra as trevas, cumprindo a profecia do Salmo 68 que diz que grande é o número das mulheres que partilham o evangelho, em qualquer que seja o seu cargo.
    Um grande abraço,
    Mirna Toledo.

  17. Eu elogio o artigo de Bráulia,pois está certíssimo que uma líder cristã não se masculiniza pelo fato de ter um cargo de direção,pois Deus capacita ambos os sexos para o ministério,sem,no entanto,anular as características sexuais de cada um.Creio que,assim como o pai e a mãe geram e criam seus próprios filhos,homem e mulher cuidam de seus filhos espirituais na vida eclesiástica.Parabéns,Bráulia!

  18. Parabéns por expressar boa parte do que se passa também no meu íntimo.
    Com o Senhor, venceremos mais essa.
    A paz!

  19. Verdadeiramente a identidade da missionária Braulia é bem forte, nunca
    perca seu ser completado em Deus, porque Ele tem feito grandes impactos por
    onde você passa através da sua simplicidade e autenticidade! Jesus te abençoe

    ps: Sou do Tocantins! E pude ser ministrada pela Braulia na Base do Coty.

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